A REPAM-Brasil acompanhou na manhã de hoje (17/11) o painel “Construir a justiça climática no Sul Global”, um espaço de reflexão profunda sobre os desafios ambientais e sociais enfrentados pelos povos amazônicos e pelas comunidades do Sul Global, realizado na 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Belém do Pará. O encontro reuniu cardeais, bispos, especialistas e representantes indígenas que, juntos, reforçaram o apelo por uma resposta urgente, solidária e integral à crise climática.
O painel contou com a presença de vozes significativas da Igreja, como o Cardeal Felipe Neri Ferrao (FABC), o Cardeal Leonardo Steiner (Arquidiocese de Manaus) e o Cardeal Pedro Barreto (CEAMA). O diálogo ressaltou a convergência entre fé, justiça socioambiental e compromisso comum com a Casa Comum.
O debate reforçou que a justiça climática não é apenas uma pauta ambiental, mas um compromisso ético que mobiliza Igreja, povos originários, organizações internacionais e toda a sociedade. A partir da Amazônia, lugar onde os impactos da crise climática são sentidos de forma mais intensa, o encontro reiterou que outro caminho é possível, desde que guiado pelo cuidado, pela solidariedade e pela escuta das populações tradicionais.
Justiça e dívidas ecológicas: a urgência do Sul Global

Para o Cardeal Leonardo Steiner, discutir justiça climática implica enfrentar questões históricas e estruturais que atravessam o planeta, especialmente no Sul Global. Ele destacou a necessidade de abordar as desigualdades na relação entre países industrializados e regiões que, apesar de menos responsáveis pela crise climática, são as que mais sofrem seus impactos. “É preciso falar da justiça em relação aos povos originários, aos quilombolas e aos primeiros habitantes cujas terras são exploradas e cuja dignidade é ferida. Refletir sobre justiça climática é também reconhecer a dívida ecológica que existe entre o Norte e o Sul”, afirmou Steiner.
Ainda, segundo o cardeal, a presença dos povos da floresta e de comunidades tradicionais no debate ajuda a Igreja e os organismos internacionais a compreenderem novas formas de relação com a Casa Comum.
O sonho amazônico e o legado profético
O Cardeal Pedro Barreto, presidente da CEAMA, destacou que a COP30 realizada na Amazônia dá ainda mais força ao chamado de Papa Francisco por uma “ecologia integral”, expressão que une o cuidado ambiental e a justiça social.
“Aqui em Belém falamos da urgência de lutar contra o aquecimento global. O grito da terra e o grito dos pobres ecoa fortemente na Amazônia. Lembro o Cardeal Claudio Hummes, que sonhou com este processo, e cujo legado continua inspirando caminhos de esperança”, destacou Barreto ao lembrar também que a Amazônia não é apenas um território ameaçado; é ainda um lugar de resistência, de espiritualidade e de esperança ativa.
Vozes indígenas e a centralidade dos territórios
Patrícia Gualinga, membro do Fórum Permanente da ONU para Questões Indígenas e vice-presidenta da CEAMA, reforçou que a justiça climática só é possível quando a sociedade reconhece e enfrenta as violações aos direitos dos povos indígenas e o avanço contínuo do desmatamento.
Para ela, “não há justiça climática sem justiça social. E não há justiça social quando não se reconhece a destruição da Amazônia e a violação dos direitos indígenas. A COP30 na Amazônia nos obriga a encarar essa realidade territorial, diversa e ameaçada.”
Ela lembrou ainda que as mudanças climáticas já afetam de maneira desigual os povos da região, evidenciando secas extremas, enchentes e instabilidades climáticas que colocam vidas em risco.

