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A REPAM-Brasil tem se dedicado a aprofundar o debate sobre as falsas soluções apresentadas para a crise climática, entre elas o mercado de créditos de carbono, que vem sendo introduzido em diversos territórios amazônicos sem o devido respeito às comunidades locais. Para dar visibilidade a diferentes perspectivas críticas sobre esse tema, a Rede convidou especialistas e lideranças a partilharem suas análises em uma série de entrevistas que serão divulgadas nas próximas semanas.

A primeira entrevista é com Lindomar, pesquisador e liderança com longa trajetória na Amazônia, que aponta como os créditos de carbono se apresentam como resposta ao mercado, e não à natureza ou às comunidades. Em suas palavras, trata-se de um mecanismo que repete lógicas coloniais, fragiliza a autonomia dos povos e contradiz frontalmente a proposta da ecologia integral trazida pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’.

Entrevista – com Lindomar Padilha, indigenista e pesquisador  

Créditos de carbono e territórios amazônicos 

1. Como o senhor percebe a chegada dos projetos de crédito de carbono na Amazônia? Quais impactos eles têm trazido? 
Esses projetos não são solução para a crise climática, mas sim para o capital. Eles permitem que grandes empresas continuem poluindo, agora vestidas de verde. Na Amazônia, chegam como arrendamento dos territórios — não de terra para gado ou mineração, mas do ar, da água, da própria floresta. 
Os impactos são devastadores: a perda da soberania sobre o território e a divisão interna das comunidades. Como não há consulta prévia, parte da comunidade, em situação de pobreza, aceita os recursos imediatos, enquanto outra parte resiste. O resultado é briga, desunião e, ao final, a perda de autonomia. 

2. Esses projetos respeitam a Convenção 169 da OIT, que garante consulta prévia, livre e informada? 
Não. Os projetos chegam prontos, já desenhados para beneficiar o mercado. A consulta deveria ser prévia, mas o que vemos é imposição. Isso repete a lógica colonial: assim como o colonizador não perguntava ao indígena se queria ser colonizado, o capital hoje não pergunta às comunidades se querem esse modelo. Chega impondo sua dominação. 

3. Quais exemplos o senhor destacaria para mostrar essa contradição? 
Um exemplo é comparar a emissão de um voo de Brasília a Washington com a queima de uma árvore. A proporção é abissal. Mas o discurso do mercado de carbono tenta fazer parecer que manter a floresta em pé compensaria a poluição das grandes corporações. Isso é uma fraude intelectual. Colocar a culpa nos povos da floresta, quando os verdadeiros responsáveis são os setores que não querem reduzir o uso de combustíveis fósseis. 

4. Há contradições entre o mercado de carbono e a ecologia integral defendida pelo Papa Francisco? 
Sim, é uma contradição absoluta. A ecologia integral busca harmonia, justiça e cuidado com a vida. Já o mercado de carbono é uma farsa que separa o carbono dos demais elementos da natureza e perpetua a exploração. Não há compatibilidade. 

5. Qual deve ser a posição das comunidades e da REPAM diante desse cenário? 
É preciso denunciar essas falsas soluções e afirmar alternativas reais de preservação que partam das comunidades. Os povos da Amazônia já conservam a floresta. O papel da REPAM é dar voz a eles, apoiar sua luta e mostrar que a verdadeira defesa da Amazônia não se faz arrendando territórios para corporações, mas garantindo soberania, vida e justiça. 

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