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Em Brasília, durante o Primeiro Seminário Nacional de Mulheres Indígenas Pesquisadoras, a voz de Márcia Wayna Kambeba ecoa como poesia, memória e denúncia. Escritora, poeta, fotógrafa, compositora e ativista do povo Omágua/Kambeba, nascida no Alto Solimões (AM), Márcia transita entre aldeia, cidade, universidade e movimentos sociais, tecendo narrativas que recolocam o território no centro da vida.

Nesta entrevista à REPAM-Brasil, ela fala sobre a terra como mãe e território sagrado, a força das mulheres indígenas na produção científica, os desafios da juventude indígena na cidade e o papel da literatura na construção da justiça socioambiental e climática na Amazônia.

REPAM-Brasil – A territorialidade é um eixo central na sua poesia, nas suas fotografias e na sua pesquisa. Como a arte ajuda a restituir as narrativas indígenas e fortalecer a defesa dos territórios em um contexto de crescente pressão sobre a Amazônia?

Márcia Wayna Kambeba – Eu sou Márcia Kambeba, do povo Omágua/Kambeba, do Alto Solimões, Amazonas. Nasci na aldeia Belém de Solimões, do povo Ticuna. Cresci ali até os 10 anos de idade, convivendo com o povo Ticuna, enquanto meu pai e minha mãe são Omágua/Kambeba. Com eles aprendi, desde cedo, a valorização do território.

Quando falo em território, não estou falando só de um espaço físico. É um território memorial, ancestral, simbólico, cultural, identitário e também sagrado. Toda aldeia tem seus pontos sagrados. Na cidade, muitas vezes a gente não sabe nem onde encontrar um lugar assim. Na aldeia, se você perguntar, sempre haverá um ponto sagrado. A partir disso, eu fui compreendendo a importância da luta pelo território.

Não se trata de “querer muita terra”, como dizem frases preconceituosas que ainda se escutam. Para nós, a terra não é mercadoria, não é algo que se compra e vende. A terra é mãe. E quando eu entendo a terra como mãe, eu não a destruo. Quem venderia sua mãe? Quem retalharia a própria mãe para vender em pedaços? É assim que vemos o desmatamento: não como corte de árvores, mas como ferida em um ser vivo.

Esse cuidado se expressa também na prática. Na aldeia Tururu Cariúca, perto de Manacapuru, as crianças Kambeba pegam suas canoas com sacos de lixo para limpar o igarapé Samaúma. Elas recolhem latas, fraldas, absorventes, tudo aquilo que a sociedade não indígena joga nos rios. Elas entendem que o rio que nos banha também precisa ser “banhado”, limpo. Meu próprio filho, autista, quando pequeno, me pedia para parar no mangue e “limpar o amigo”, como ele chamava aquele lugar. Isso é consciência ambiental.

Percebi que a literatura poderia contribuir com essa consciência. Livros como O Curumim e o Rio, A Aldeia dos Encantados, Matintã Tapajé ou Saberes da Floresta levam crianças, jovens e adultos a compreenderem que nós não somos apenas “parte” do território: nós somos o próprio território. Não estamos acima da terra; caminhamos com ela, que tem espírito, assim como as árvores, as águas, o vento. Quando escrevo poesia, escrevo também para lembrar que o território é sujeito de direito e que, se tem vida, precisa continuar existindo.


REPAM-Brasil – Você está participando do Primeiro Seminário Nacional de Mulheres Indígenas Pesquisadoras, que reúne tantas vozes e trajetórias. Quais são, na sua visão, os principais desafios e potências da produção científica feita por mulheres indígenas hoje?

Márcia – A universidade é um direito, e também uma ferramenta de defesa do território. Eu costumo dizer que o conhecimento do povo indígena precisa estar na educação para que ela seja uma aliada na proteção das nossas terras. Aqui no seminário estou vendo pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, em sua maioria envolvendo território. Isso mostra uma preocupação profunda: quando o território é afetado, nós também somos. Quando uma árvore cai, cai também em nós uma dor.

Ontem ouvi o trabalho de uma parenta sobre o roçado. O roçado é um território de afetividade: lugar de ajuri, de plantio, de colheita, de família – e quando digo família, é a aldeia inteira. Ver mulheres pesquisando e defendendo seus territórios a partir desses lugares é muito forte.

No meu doutorado pesquisei o meu povo Omágua/Kambeba atravessando fronteiras: Amazônia brasileira e Amazônia peruana. Os parentes do lado peruano achavam que nós, do Brasil, havíamos sido dizimados. Nós sabíamos que eles estavam lá. Faltava coragem de atravessar a fronteira. Quando cheguei a San Joaquín de Omaguas, vi um povo ainda no território, mas desterritorializado de si: já não dançavam, não cantavam mais seus cantos sagrados, não falavam a língua fluentemente. A partir do encontro, organizamos grupos de canto, de dança, de língua, de comida tradicional. Criamos um grupo de WhatsApp, uma casa grande está sendo construída com apoio de uma ONG, e o povo está retomando seus saberes. Isso nasce também de uma pesquisa feita por uma mulher indígena.

Há ainda um desafio grande: o da infraestrutura e do investimento. Muitas mulheres não puderam vir ao seminário por falta de recursos, inclusive da própria universidade. E há outra camada: o impacto do desmatamento. A palha de ubim, que cobria as casas tradicionais, já virou quase peça de museu. O material das flechas, das casas, foi tirado pelo corte de árvores. Isso obriga muitas aldeias a construírem em alvenaria e telha. Há uma descaracterização forçada pelo avanço do “progresso”. A pesquisa dessas mulheres denuncia isso e fala também de justiça climática: como garantir que as futuras gerações ainda saibam o que é uma palha de ubim, uma casa tradicional, um modo de vida em equilíbrio?


REPAM-Brasil – Na sua obra, você também aborda a vivência indígena na cidade. Como essas experiências urbanas impactam a construção da identidade e o sentimento de pertencimento das mulheres e das juventudes indígenas?

Márcia – Hoje, a juventude indígena quer estudar. A universidade é um sonho real. Mas muitas vezes os cursos que eles desejam não chegam ao território: faltam direito, engenharia ambiental, engenharia florestal… Então, para estudar, precisam sair da aldeia. E aí começam os desafios.

Onde esses estudantes vão morar? Em muitas cidades não há casas específicas de acolhimento para estudantes indígenas, lugares onde possam cozinhar juntos, fazer seus rituais, falar sua língua. Eles acabam morando em bairros periféricos, mais baratos, enfrentando racismo, preconceito e exigências de “adaptação”: cortar o cabelo longo para conseguir emprego, deixar de usar brinco de pena, cocar, mudar a forma de se vestir, de falar. Isso impacta profundamente a identidade.

Tenho visitado universidades onde a evasão é alta e os estudantes indígenas estão adoecendo psicologicamente. Em uma conversa na Unicamp, por exemplo, ouvi jovens dizendo que já não tinham vontade de ir à universidade, perguntando como manter a cultura quando não conseguem voltar para a aldeia nas férias. Cada pergunta daquela cortava meu coração.

O que eu digo para eles é: transformem, na medida do possível, essa “selva de pedra” em aldeia. Conversem na língua, cantem, contem histórias, façam um ritual, partilhem um mingau ou um alimento simples. A partilha é ser parente, é um cuidar do outro. Digo também algo que considero fundamental: vocês têm direito a tudo, menos a desistir e a tirar a própria vida. A vida de vocês pertence à ancestralidade. A resistência acontece na insistência: insistir em ser engenheiro, médico, enfermeiro, pesquisador, sem abrir mão de quem se é.


REPAM-Brasil – Como escritora, compositora e ativista, você traduz saberes ancestrais em linguagens que dialogam com diferentes públicos. De que forma essa circulação – entre aldeia, universidade, cidade e movimentos sociais – pode inspirar caminhos para a justiça social e ambiental na Amazônia?

Márcia – Acredito que cada vez que um livro meu entra numa sala de aula ou numa universidade, um movimento já começou. Quando uma criança lê O Curumim e o Rio e entende que o personagem tira da natureza apenas os quatro peixes que a mãe pediu, ela aprende que é preciso tomar da natureza só o que é necessário. Isso é justiça socioambiental em linguagem de criança.

Nos meus livros eu falo de gestos simples: fechar a torneira enquanto se ensaboa uma vasilha, desligar uma tomada que não está em uso. Parece pouco, mas é educação para a consciência da água, da energia, dos recursos. Obras como Ay Kakyri Tama – Eu Moro na Cidade se tornaram leitura obrigatória em várias universidades, porque tratam de identidade indígena na cidade, de justiça climática, de nossa relação com o território.

Também levo essa literatura para espaços como prisões. Lá dentro, não posso fotografar nada: entro apenas com meu corpo e com o livro. Já ouvi de pessoas privadas de liberdade que, ao lerem Saberes da Floresta ou Ay Kakyri Tama, decidiram que, ao sair, querem formar uma família, ser pessoas do bem, escrever sobre a própria experiência e ajudar outras pessoas. Isso é justiça social: perceber que não existe lugar onde não haja possibilidade de transformação.

Eu costumo dizer que a gente não veio ao mundo à toa. Cada um tem uma missão, um legado para deixar, por menor que pareça. Se a minha literatura consegue tocar uma criança, um estudante universitário, uma mulher indígena pesquisadora, uma pessoa em situação de cárcere, então ela já está ajudando a construir caminhos de justiça socioambiental na Amazônia e além dela.

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