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Dados recentes divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) reforçam um cenário alarmante de violência contra crianças e adolescentes no mundo e, de forma ainda mais grave, na América Latina e no Caribe. A violência — física, sexual, psicológica e letal — segue presente justamente nos espaços onde crianças deveriam estar protegidas: em casa, na escola, nas comunidades e também nos ambientes digitais. 

Segundo o Unicef, o homicídio é hoje a principal causa de morte entre meninos de 10 a 19 anos no Brasil. Em escala global, cerca de um quinto das vítimas de homicídio são crianças e adolescentes com menos de 20 anos, o que representou aproximadamente 95 mil mortes em um único ano analisado. Na América Latina e no Caribe, entre 2015 e 2022, mais de 53 mil crianças e adolescentes foram assassinados, evidenciando o caráter estrutural e persistente dessa violência na região. 

Na Amazônia Legal, esse cenário se agrava diante de desigualdades históricas, isolamento territorial e fragilidade dos sistemas de proteção. Estados da região concentram taxas elevadas de homicídios de adolescentes — sobretudo meninos negros e periféricos — além de registros recorrentes de violência sexual contra meninas, frequentemente associados a contextos de pobreza, mobilidade forçada, garimpo ilegal, exploração econômica e presença do crime organizado. Casos recentes, como o desaparecimento e a situação de vulnerabilidade de crianças em municípios do Maranhão, a exemplo de Bacabal, evidenciam como a ausência de políticas públicas contínuas, a subnotificação e o medo de denunciar aprofundam o ciclo de violência. 

Nesse contexto, a professora Márcia Oliveira chama atenção para a naturalização da violência no cotidiano familiar e social. Segundo ela, “a violência estrutural contra crianças no Brasil é impulsionada pela pobreza, pelas desigualdades sociais, pela impunidade, pelas falhas na proteção estatal e pela naturalização de métodos disciplinares violentos no ambiente familiar”. A pesquisadora destaca ainda que “mais de 80% dos casos de violência e homicídio contra crianças e adolescentes ocorrem dentro de casa, frequentemente alimentados pela reprodução de ciclos de violência doméstica e pela falta de suporte socioeconômico”. 

Márcia Oliveira ressalta que famílias em situação de vulnerabilidade, com carência de recursos básicos como alimentação, moradia e educação, estão mais expostas a situações de negligência e violência. No entanto, ela alerta que “crianças e adolescentes de todas as classes sociais são vítimas da violência, em maiores ou menores proporções”. Para a professora, a crença no castigo físico como forma de disciplina e as normas de gênero que toleram comportamentos agressivos contribuem para perpetuar a violência doméstica. “O reconhecimento da reprodução da violência no âmbito familiar é o primeiro passo para o enfrentamento da violência na sociedade”, afirma. 

Diante desse cenário, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), por meio de suas redes territoriais, pastorais sociais e articulação com comunidades, reafirma a urgência de fortalecer políticas de prevenção, proteção integral e resposta rápida, garantindo que crianças e adolescentes amazônicos tenham seus direitos assegurados e não permaneçam invisíveis às estatísticas. 

Violência sexual e o silenciamento das vítimas 

O relatório do Unicef, considerado a maior compilação de dados já realizada pela agência sobre violência contra crianças, reúne informações de 190 países e traz números especialmente preocupantes sobre violência sexual. Estima-se que cerca de 120 milhões de meninas com menos de 20 anos — uma em cada dez — já tenham sofrido algum tipo de violência sexual no mundo. 

Dados de 30 países indicam que aproximadamente 70% das meninas entre 15 e 19 anos vítimas de abuso físico ou sexual nunca buscaram ajuda. Entre os motivos estão o medo, o desconhecimento de que a violência sofrida configurava abuso e a percepção de que o problema não seria levado a sério. 

Para a professora Márcia Oliveira, o silêncio que cerca a violência sexual está profundamente ligado às desigualdades e às relações de poder. “O abuso sexual de crianças e adolescentes não tem uma classe social específica, porém a exploração sexual está mais relacionada a relações comerciais nas quais os corpos das crianças, especialmente das meninas, são usados em troca de favores, dinheiro ou presentes — que podem variar de um doce a um prato de comida”, explica. 

Ela destaca que a dificuldade de denúncia está diretamente relacionada à falta de informação. “Na maioria dos casos, o adulto convence a criança de que se trata de carícias ‘normais’. Em muitas situações, há violência e ameaças para que ela não conte o que está acontecendo, especialmente para as mães.” A professora lembra que, em casos de abusos cometidos por pais ou responsáveis, o silêncio também pode ser resultado do medo ou da cumplicidade. 

Como exemplo emblemático, Márcia Oliveira cita a denúncia retratada no filme Manas, dirigido por Marianna Brennand, com assessoria da saudosa Irmã Marie Henriqueta, que denunciou insistentemente a violência sexual contra crianças e adolescentes na Ilha do Marajó. “A informação é a principal forma de enfrentamento, seguida da formação de redes de proteção que começam na família e na comunidade”, reforça. 

Violência desde a primeira infância 

Na América Latina e no Caribe, a violência se manifesta desde os primeiros anos de vida. Seis em cada dez crianças com menos de 14 anos são submetidas a algum tipo de disciplina violenta em casa, enquanto um em cada quatro adolescentes entre 13 e 17 anos relata sofrer bullying na escola, incluindo o cyberbullying. 

O relatório aponta que diferentes formas de violência estão interligadas e tendem a se intensificar ao longo do tempo, produzindo efeitos duradouros na saúde física e mental, no acesso à educação, no desenvolvimento social e na capacidade de romper ciclos de pobreza e exclusão. 

Desigualdades, violência armada e normas de gênero 

Os homicídios de crianças e adolescentes ocorrem em um contexto marcado pelo avanço da violência armada, pela atuação do crime organizado, pelo fácil acesso a armas de fogo, pelas desigualdades sociais e por normas de gênero prejudiciais. Embora dados recentes indiquem redução na taxa de homicídios entre adolescentes do sexo masculino, a taxa entre meninas mais do que dobrou em alguns países da região, revelando novas dinâmicas de risco e vulnerabilidade. 

Chamado à ação e fortalecimento dos sistemas de proteção 

Diante desse cenário, Unicef e Opas reforçam a necessidade urgente de políticas públicas integradas que priorizem a prevenção da violência, a proteção das vítimas e a responsabilização dos agressores. Entre as recomendações estão o fortalecimento dos sistemas de saúde, educação, justiça e assistência social; o apoio às famílias; a promoção de práticas parentais respeitosas; e a criação de ambientes escolares e comunitários seguros. 

A iniciativa global #ENDViolence, lançada pelo Unicef, propõe “tornar o invisível, visível”, chamando atenção para uma violência que, muitas vezes, permanece escondida ou é tolerada por normas culturais e sociais.

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