É hora de dizer com todas as letras: o garimpo ilegal é mantido por um pacto nacional de destruição. Um pacto que envolve políticos, empresas, mercados, consumidores e, sim, parcelas da sociedade civil que preferem fechar os olhos à origem do ouro que compram.
Marcia Oliveira
29 de julho de 2025
Há algo de perverso no modo como o Brasil lida com o garimpo ilegal na Amazônia. A cada escândalo – uma nova imagem de mercúrio nos rios, uma operação de retirada de invasores, uma denúncia de tráfico humano – reage-se com indignação pública. Mas a resposta estrutural nunca vem, o enfrentamento ao garimpo tem sido lento e não consegue acompanhar a rapidez com que o crime se alastra em toda a Amazônia. O Governo Federal tem investido no combate ao garimpo, mas, não encontra apoio dos governos e políticos locais.
Quando olhamos para a realidade das terras indígenas invadidas por garimpeiros, como a Yanomami, vemos um Estado que falhou não apenas por omissão, mas por conveniência. As estruturas do garimpo — pistas de pouso, balsas, máquinas pesadas, acampamentos inteiros — não surgem do nada. Há logística, financiamento, apoio político e conivência institucional. O Estado sabe quem são os donos das aeronaves, quem abastece de combustível, quem lucra com a cadeia do ouro. O garimpo ilegal é tolerado porque atende a interesses concretos: movimenta bilhões, financia campanhas, alimenta o mercado informal e reduz a floresta a cifrões. Enquanto isso, populações indígenas morrem, mulheres são escravizadas e a Amazônia sangra em silêncio.
Há também uma aliança implícita — e nem tão secreta — entre garimpo ilegal e grandes mineradoras. Não se trata apenas de tolerância passiva. Em muitos casos, o garimpo serve como “batedor de trilha” para os megaprojetos legais: desmatam, testam a resistência das comunidades, mapeiam o subsolo e desorganizam o tecido social. Quando as empresas chegam, o território já está “amaciado”. O mapeamento realizado pela REPAM-Brasil confirma isso ao registrar a presença simultânea de lavras ilegais e licenças de exploração em uma mesma região, como no caso de Paranapanema, Potássio do Brasil e tantas outras. A fronteira entre o “ilegal” e o “legal” é porosa, e essa ambiguidade é lucrativa.
Mas talvez o aspecto mais brutal dessa engrenagem esteja no corpo das mulheres. O tráfico humano nos garimpos não é acidental: é parte do modelo. A lógica extrativista — que retira da terra sem reposição — se replica nos corpos. Meninas de 12, 13 anos, aliciadas, mantidas sob cárcere, exploradas sexualmente e depois descartadas. Mulheres que carregam não apenas as marcas físicas da violência, mas o trauma de uma sociedade que se recusa a reconhecer sua responsabilidade. O feminicídio nos garimpos é naturalizado, porque o território amazônico ainda é visto como um não-lugar, onde os direitos podem ser relativizados e a vida, subvalorizada.
É hora de dizer com todas as letras: o garimpo ilegal é mantido por um pacto nacional de destruição. Um pacto que envolve políticos, empresas, mercados, consumidores e, sim, parcelas da sociedade civil que preferem fechar os olhos à origem do ouro que compram. Esse pacto precisa ser rompido. Não com mais discursos, mas com ações concretas: rastreamento obrigatório do ouro, criminalização dos financiadores, confisco de bens, expulsão de políticos envolvidos, fim dos subsídios à mineração em terras protegidas.
A desintrusão do garimpo na Terra Indígena Yanomami precisa ser completada com a retirada do resíduo sólido que ficou para trás. O lixo acumulado nos acampamentos garimpeiros está contaminando as águas e as comunidades indígenas. São tanques de metal e caixas d’água que servem de depósito para propagar o mosquito da malária e da dengue; vasilhames contaminados com diesel e mercúrio aos poucos chegam às malocas para uso doméstico e envenenam de novo as crianças; carcaças de aeronaves e motores estão enferrujando e espalhando contaminação; dragas e mangueiras de polietileno espalham microplásticos que contaminam o solo e as águas e representam risco para os animais; as latas de conserva estão espalhadas por toda parte além de toneladas de sacolas e sacos plásticos acumulados ao longo dos últimos 10 anos. Todo este material precisa ser removido. Os custos são muito altos para a remoção. Mas, é urgente a retirada dos resíduos sólidos para descontaminar o território. Além disso, os resíduos precisam ser retirados para que nada seja reaproveitado pelos possíveis garimpeiros que teimam em retornar aos antigos acampamentos.
O enfrentamento ao garimpo ilegal, portanto, precisa ser radical – no sentido de ir à raiz do problema. Não basta reprimir pontualmente. É preciso desmontar a estrutura que sustenta essa prática, inclusive questionando o modelo de desenvolvimento que vê a Amazônia como um depósito de recursos a serem explorados a qualquer custo. Isso implica responsabilizar políticos envolvidos, endurecer a fiscalização, rastrear o ouro desde sua origem até o mercado consumidor e, sobretudo, criar alternativas reais de geração de renda que não estejam baseadas na destruição do território. A floresta não é obstáculo para o progresso; é o próprio caminho do futuro, se soubermos cuidar.
Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em gênero, identidade e cidadania; Cientista social, licenciada em Sociologia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônia (REPAM-Brasil) e da Cáritas Brasileira.

