Márcia Maria de Oliveira

Nesta semana celebramos o aniversário da páscoa de dois grandes profetas da Amazônia: Pe. Cláudio Perani e Dom Pedro Casaldáliga. No dia 8 de agosto, ambos foram semeados no chão sagrado da Amazônia tão querida e defendida por eles. Tive a imensa graça de conhecer os dois.
Encontrei Dom Pedro em diversas ocasiões na Diocese de Goiás, onde morei toda a minha infância e juventude. Ele e Dom Tomás foram irmãos de alma. Com eles fiz minha “iniciação à vida Cristã” na militância das lutas populares. De Dom Pedro Casaldálida recebi meu primeiro anel de tucum, como presente de aniversário de 13 anos celebrado na imensa Romaria da Terra em 25 de julho de 1984. Me lembro ainda da homilia daquela celebração que marcou profundamente a minha caminhada. A defesa da vida humana, em especial dos pobres, oprimidos, camponeses e indígenas, é o alicerce primordial de qualquer relação com a criação. Cuidar do ser humano e garantir sua dignidade formam a base da ecologia integral, pois não há preservação ambiental justa sem justiça social. A primeira ecologia a ser cuidada é o ser humano que, uma vez cuidado, cuidará de toda a criação, dizia Dom Pedro Casaldáliga.
Muitos anos se passaram e no início de 2004, Pe. Cláudio Perani cruzou meu caminho e marcou para sempre a minha história. Em uma manhã calma de março, ele apareceu na sala de aula onde eu estava estudando o último ano do curso de sociologia na Universidade Federal do Amazonas. Já o conhecia de vista, mas, nunca havia conversado com ele. De repente, o professor Luiz Antônio me chama e diz “meu amigo Pe. Cláudio está ali fora e veio falar com você”. Ali começava a mais profunda experiência de amizade e cumplicidade da minha vida.
Com ele trilhamos a Amazônia mais profunda. Foram experiências de aprendizado permanente, de encantamento com as belezas da região, de contemplação, de indignação e de luta com os povos da Amazônia. Quando adentrava as casas mais pobres nas periferias de Manaus, irradiava um sorriso quase de menino. Se sentava ao chão com as crianças para fazer com elas as tarefinhas da escola. Conversava com as mães sobre projetos de inclusão social através da formação. Queria uma revolução que começava com as crianças mais pobres e esquecidas!
À Equipe Itinerante, que foi uma de suas inspirações, ensinava a lição da visitação: “andem pela Amazônia, visitem as famílias, fiquem um tempo com elas, escutem suas angústias, seus sonhos e esperanças. Assim se conhece a Amazônia e seus povos, dizia ele na maturidade de sua sabedoria.
Compartilhou muitos conhecimentos com as lideranças populares da Amazônia. Iniciou muitos ciclos de formação popular. Com ele aprendi que se aprende sempre com a simplicidade do povo. “Prestem atenção, o povo tem as respostas!” Dizia ele. Era a forma mais direta e didática de nos dizer que não se podia fazer nada pelo povo sem o povo.
O sábio jesuíta, marcado pela simplicidade e pela radicalidade do evangelho nos deixou um pouco órfãos em 08 de agosto de 2008. Dez anos depois, Dom Pedro Casaldáliga se juntou a ele, e foi semeado à sobra rala de um pequizeiro às margens do Rio Araguaia e se misturou definitivamente aos ancestrais do Povo Karajá.
Os dois profetas da Amazônia escolheram o mesmo dia para o encontro definitivo. Sua memória nos move na luta em defesa da Amazônia e de seus povos. Que sigam inspirando muitas outras gerações.
*Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em gênero, identidade e cidadania; Cientista social, licenciada em Sociologia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônia (REPAM-Brasil) e da Cáritas Brasileira.

