Entrevista com padre André
Em meio aos desafios socioambientais que atravessam a Amazônia — violência, mineração, desmatamento e migração forçada —, o verbo “amazonizar” ganha força como expressão de fé, resistência e compromisso com a vida. Nesta entrevista à REPAM-Brasil, o padre André Luiz Bordignon Meira, missionário na Igreja de Porto Velho RO, reflete sobre o significado desse conceito, sua dimensão espiritual e política, e os caminhos para fortalecer os povos amazônicos e o cuidado com a Casa Comum.

O que significa “amazonizar” e por que esse verbo se tornou tão importante para compreender a missão da Igreja na Amazônia hoje?
Amazonizar significa assumir a defesa e o cuidado da Amazônia a partir do diálogo entre os saberes dos povos amazônicos e as instituições. É desenvolver uma lógica diferente de pensar e agir, que questiona práticas exploratórias e neocoloniais ainda muito presentes, como o desmatamento, o agronegócio predatório, a mineração legal e ilegal e uma urbanização descomprometida com o território.
Esse verbo nos convida a aprender com o bem viver dos povos originários, incorporando a lógica do preservar, do cuidar, do conviver e do sobreviver em harmonia com a ecologia integral. Amazonizar é, portanto, assumir uma causa: a defesa dos povos amazônicos, do bioma e da Casa Comum, garantindo um futuro digno para as próximas gerações.
O termo aparece nos documentos da Igreja desde a década de 1970, com destaque para a Carta Pastoral da Diocese de Rio Branco, no Acre, e expressa a necessidade de respeitar o ritmo próprio da Amazônia, seus saberes, culturas e espiritualidades, fortalecendo processos de resistência e descolonização.
Como a espiritualidade e a sabedoria dos povos amazônicos iluminam a ecologia integral proposta pela Laudato Si’?
Amazonizar a fé está profundamente ligado ao modo de viver. A espiritualidade dos povos amazônicos ensina que a Casa Comum não é propriedade, mas espaço de convivência, memória e cuidado. A vida comunitária, a solidariedade e a partilha são pontos de encontro entre a fé cristã e a religiosidade indígena.
Assim como nas primeiras comunidades cristãs descritas nos Atos dos Apóstolos, os povos originários vivem a comunhão com a terra, com o trabalho e com o outro, sem deixar ninguém para trás. Essa espiritualidade ilumina a ecologia integral da Laudato Si’, mostrando que tudo está interligado e que cuidar da criação é uma expressão concreta da fé.
Entre os quatro sonhos de Querida Amazônia — social, cultural, ecológico e eclesial — qual é o mais urgente neste momento?
Mais do que escolher um sonho específico, é fundamental compreender que os quatro sonhos são inseparáveis. Como lembra o Papa Francisco, tudo está interligado. Sonhar juntos é o que permite transformar esses sonhos em realidade.
Cada sonho sustenta o outro: o social, o cultural, o ecológico e o eclesial formam as estacas que ampliam a tenda amazônica, fortalecendo a convivência, a fraternidade e a defesa da vida. Sonhar coletivamente nos ajuda a ler os sinais dos tempos e a expandir a Amazônia para o mundo como referência de cuidado e esperança.
Em um contexto de violência, mineração, migração forçada e desmatamento, como “amazonizar” se torna um ato de resistência política e espiritual?
Amazonizar é resistir às lógicas econômicas e políticas que priorizam o lucro e a exploração em detrimento da vida. Essa resistência não se dá de forma partidária, mas a partir do compromisso com o bem comum e com a salvaguarda da criação.
A fé nos move a questionar modelos desenvolvimentistas que geram desigualdade, expulsam comunidades de seus territórios e aprofundam a violência. Amazonizar a política é propor alternativas baseadas no cuidado, na justiça socioambiental e na dignidade humana, reconhecendo que proteger a Amazônia é proteger toda a humanidade.
Como fortalecer as populações tradicionais e seus saberes sem abafar suas vozes e protagonismos?
O caminho é construir juntos a partir da base, garantindo escuta verdadeira e protagonismo real aos povos originários. Muitas vezes, instituições falam sobre esses povos, mas não falam com eles. É fundamental inverter essa lógica.
Experiências como os espaços de diálogo, feiras ecológicas e simpósios dos povos da floresta mostram a importância da convivência direta, da escuta atenta e do respeito aos saberes tradicionais. Fortalecer os povos amazônicos é permitir que eles próprios indiquem os caminhos, iluminando ações concretas de resistência e defesa de seus direitos.
O senhor afirma que “amazonizar a política” é garantir direitos. Que exemplo de política pública verdadeiramente amazonizadora o senhor destacaria?
Uma política pública amazonizadora é aquela que protege os territórios indígenas, fortalece a agroecologia, garante os direitos dos ribeirinhos e promove uma convivência harmoniosa entre cidades e floresta. Defender a natureza é garantir equilíbrio climático, justiça social e dignidade humana.
Amazonizar a política significa enfrentar os interesses do capitalismo predatório, da tecnocracia e da colonização histórica da Amazônia, propondo políticas baseadas no bem viver, na justiça e no cuidado com a Casa Comum.
Para quem está fora da região, o que significa “amazonizar o mundo”? Que pequenos gestos já contribuem para esse caminho?
Amazonizar o mundo começa pela consciência e pelo compromisso. Para quem está fora da Amazônia, isso significa apoiar a causa amazônica, informar-se criticamente, votar em candidatos comprometidos com a defesa do bioma e dos povos originários, e adotar práticas de consumo responsáveis.
Pequenos gestos fazem diferença: priorizar energias limpas, evitar produtos ligados à exploração predatória, apoiar a demarcação das terras indígenas e se posicionar contra o marco temporal. Amazonizar o mundo é compreender que estamos interligados e que cuidar da Amazônia é cuidar do futuro do planeta.

