A Análise de Conjuntura do Grupo Padre Thierry Linard, da CNBB, situa o ano de 2026 em um tempo histórico marcado pelo interregno — um período em que as estruturas que organizaram o mundo nas últimas décadas já não conseguem oferecer estabilidade, enquanto um novo modelo de ordem ainda não conseguiu nascer. Retomando Antonio Gramsci, o texto afirma que vivemos um momento em que “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”, e é justamente nesse intervalo que emergem os chamados “sintomas mórbidos”: medo difuso, ressentimento social, busca por culpados, soluções simplificadoras, autoritarismos e a tentação de líderes providenciais.
O interregno contemporâneo não se caracteriza pela ausência de acontecimentos, mas pelo seu excesso. Há uma aceleração do tempo histórico, uma multiplicação de crises e narrativas que já não dialogam entre si, produzindo desorientação coletiva. A sensação de perda de chão não decorre da falta de explicações, mas da dificuldade de construir sentidos comuns em um mundo fragmentado, hiperconectado e profundamente desigual.
Um dos pilares em erosão é a globalização tal como foi concebida nas últimas décadas. A promessa de que a integração econômica automática produziria prosperidade, eficiência e paz revelou suas fragilidades diante de pandemias, guerras, choques logísticos, disputas tecnológicas e crises energéticas. O mundo caminha para uma reorganização em blocos, com cadeias produtivas mais curtas, proteção de setores estratégicos e uso crescente de tarifas, sanções e controles como instrumentos políticos. Nesse cenário, a interdependência deixa de ser percebida como cooperação e passa a ser vivida como risco, alimentando instintos de autopreservação e insegurança social.
Esse movimento aprofunda a crise de confiança global e normaliza a coerção econômica como linguagem corrente das relações internacionais. Muros não são apenas físicos, mas também tarifários, tecnológicos, regulatórios e financeiros. A política passa a ser julgada menos pela capacidade de construir futuros compartilhados e mais pela promessa de “proteger”, o que favorece narrativas excludentes e a busca de bodes expiatórios — estrangeiros, imigrantes, minorias, organismos internacionais ou potências rivais — como forma simplificada de explicar sofrimentos complexos.
Ao mesmo tempo, observa-se a erosão do sistema internacional baseado em regras. Instituições multilaterais permanecem de pé, mas perdem eficácia e credibilidade. Tratados, normas e tribunais internacionais são frequentemente contornados ou instrumentalizados conforme a correlação de forças, alimentando a percepção de que o direito internacional existe mais como apelo moral do que como limite real ao poder. A substituição do pacto pela exceção e da norma pela força contribui para um ambiente internacional instável, imprevisível e marcado pelo curto prazo.
A transição de um mundo unipolar para um mundo multipolar intensifica essas tensões. A ascensão de novos polos de poder, a reorganização de alianças e o fortalecimento de blocos como o BRICS revelam a busca de países e regiões por maior autonomia diante das coerções do sistema dominante. No entanto, a multipolaridade, sem mecanismos eficazes de contenção e confiança, tende a produzir mais competição do que equilíbrio, ampliando riscos de conflitos diretos e indiretos.
Esse quadro se agrava com a megatendência ecológica, que desloca a natureza do papel de pano de fundo para o de protagonista da história. Crises climáticas, escassez de água, perda de biodiversidade e eventos extremos impactam diretamente a economia, a segurança alimentar, as migrações e os conflitos. As instituições políticas e econômicas, estruturadas para decisões de curto prazo, mostram-se inadequadas para enfrentar desafios que exigem visão de longo prazo, cooperação global e justiça intergeracional. Nesse contexto, convivem a negação que anestesia e a ansiedade que paralisa.
A democracia liberal também atravessa um período de desgaste. Quando não consegue garantir segurança material, reconhecimento social e perspectiva de futuro, abre espaço para discursos autoritários, moralistas e excludentes. Esse processo é amplificado pelas redes sociais, que fragmentam a esfera pública, mercantilizam a atenção e incentivam a polarização. O enfraquecimento das mediações tradicionais corrói a confiança coletiva e transforma o conflito em destino, e não em disputa democrática mediada.
No campo do direito internacional, a análise identifica uma deriva preocupante em direção ao unilateralismo hegemônico. Discursos recentes de líderes políticos e a criação de instâncias paralelas de governança indicam uma substituição progressiva do multilateralismo por arranjos seletivos, nos quais a legitimidade cede lugar à conveniência estratégica. Nesse cenário, o direito deixa de ser contenção do poder e passa a ser tratado como obstáculo, abrindo caminho para a normalização da exceção e da força como método de governo global.
Diante desse quadro, o texto converge com o magistério recente do Papa Leão XIV, que denuncia a crise não apenas como institucional, mas como profundamente ética e civilizatória. Mais do que reformar mecanismos de governança, torna-se necessário recolocar no centro a dignidade humana, o bem comum universal, a solidariedade entre os povos e o primado do diálogo. Sem esses fundamentos, o direito internacional corre o risco de se reduzir a instrumento seletivo, incapaz de sustentar uma paz verdadeira.
A Análise de Conjuntura conclui que os “sintomas mórbidos” do nosso tempo são sinais de uma transição profunda. Eles expressam a tentativa de preencher com emoção, medo e pertencimento tribal aquilo que foi perdido em termos de arquitetura institucional e racionalidade coletiva. Mas o interregno não é apenas crise: é também disputa e possibilidade. Entre o velho que se desfaz e o novo que ainda não nasceu, existe um trabalho humano inadiável de nomear a realidade, reconstruir pactos, reinventar instituições e reacender a esperança.
Para a REPAM, esse tempo exige reafirmar o compromisso com a Ecologia Integral, a defesa dos territórios e dos povos amazônicos, a promoção da justiça socioambiental e a construção de uma cultura de paz fundada no cuidado com a Casa Comum. Em um mundo marcado pela fragmentação e pela força, a aposta na vida, no diálogo e na solidariedade torna-se não apenas um imperativo ético, mas um caminho concreto de resistência e transformação.
Confira a análise aqui.

