Notícia

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulga, nesta quarta-feira (02/09), os dados parciais de conflitos ligados a questões agrárias no país durante o 1o semestre de 2026. A apresentação dos dados parciais ao público acontece no site e nas redes sociais da CPT.

Após um ano de queda, o número de conflitos no campo tornou a crescer, totalizando 841 conflitos, distribuídos entre os eixos: terra (711 registros), água (100) e trabalho escravo
rural (30 ocorrências).

O estado do Maranhão continua sendo o que mais registrou conflitos no campo neste primeiro semestre (156), uma tendência que já vem sendo observada nos últimos anos.
Outros estados, como Pará (90), Bahia (85), Rondônia e Amazonas (com 63 cada), também
registraram um número significativo de conflitos.

Conflitos pela Terra

A maior parte destes conflitos envolve as violências pela ocupação e a posse da terra,
com um pequeno aumento em relação a 2025, passando de 584 para 663, em 2026. Já o
número de resistências, como ocupações e acampamentos, diminuiu de 66 para 48, mas segue uma tendência dos últimos dez anos.

Os estados do Maranhão (153), Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54) seguem
liderando os registros de ocorrências de violência no eixo terra. É importante destacar
também o Amazonas, que registrou um aumento das ocorrências em 140% em comparação
ao mesmo período de 2025, alcançando 52 registros de conflitos.

A contaminação por agrotóxicos foi a forma de violência que mais registrou
aumento, seguida de invasão aos territórios, desmatamento ilegal e ameaça de despejo,
violências ligadas à expansão do agronegócio, com destaque para o estado do Maranhão.


Conflitos pela Água
Os conflitos por água tiveram mais do que o dobro de aumento em relação ao primeiro semestre do ano passado (de 47 para 100 registros), em 20 estados. O Pará teve o
maior número de registros, com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas e
Mato Grosso (com 10 conflitos cada). No caso do Pará, o ano tem sido marcado pela luta dos povos indígenas contra a privatização dos rios, por parte do governo federal, e a ação de garimpeiros, além da luta de ribeirinhos e outros povos contra a atuação de mineradoras. A luta dos indígenas contra a privatização dos rios, inclusive, resultou na revogação do Decreto no 12.600/2025, no mês de fevereiro de 2026.

Trabalho Escravo
Os dados de ocorrências de trabalho escravo rural tiveram diminuição neste primeiro
semestre de 2026 em relação ao ano passado, tanto no número de ocorrências (30) quanto no de trabalhadores resgatados (355). Essa diminuição pode estar relacionada ao atraso no
fornecimento de dados da Secretária de Inspeção do Trabalho, que é a principal fonte
utilizada pela Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Escravo da CPT.

Mesmo com este cenário, que deve mudar com a inserção dos dados no 2o semestre,
um dos destaques neste eixo é o estado de São Paulo, que registrou o maior número de
trabalhadores resgatados (148) e de casos registrados (5). Em três destes cinco casos, os
trabalhadores foram resgatados durante atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar.

Violência contra a pessoa
Em relação à violência contra a pessoa, foram registrados até o momento 6 (seis)
assassinatos em conflitos no campo, sendo um caso de massacre com três vítimas posseiras, registrado em Lábrea (AM), dois indígenas (em Roraima e Mato Grosso do Sul) e um trabalhador rural sem-terra. As vítimas tinham entre 14 e 45 anos.

Mesmo com a menor quantidade de mortes em relação ao ano passado (27), o número
de casos (588) e vítimas da violência (497) aumentou em comparação ao último ano. A
violência com maior número de registros é a contaminação por minérios, com 195 casos,
seguida pela contaminação por agrotóxicos (132), criminalização (51) e ferimentos (42).

As principais vítimas foram os povos indígenas, seguidos dos trabalhadores e
trabalhadoras sem terra, posseiros, seringueiros e quilombolas. Nas ocorrências de violência
contra a pessoa relacionadas à contaminação por minério, todas foram registradas em apenas um caso, no município de Jacareacanga (PA). A violência atinge a Terra Indígena
Munduruku, decorrente do garimpo ilegal de ouro na bacia do rio Tapajós, já denunciado
formalmente pelo povo Munduruku.

Manifestações
Mesmo sendo um dado que não se insere no cálculo dos Conflitos no Campo, as
manifestações de luta representam uma importante estratégia das comunidades para
denunciar as violências sofridas e lutar pela garantia de seus direitos, sendo uma forma de
resistência registrada pela CPT. No primeiro semestre de 2026, estas ações tiveram um
pequeno aumento nos registros (de 253 para 284), com destaque para atos públicos, marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias, ocupações de prédios públicos e outras mobilizações. As principais reivindicações são pela demarcação de terras indígenas, contra os agrotóxicos, contra a mineração e a privatização das águas, por melhores condições de trabalho, dentre outras pautas.

Metodologia
Os dados do 1o semestre servem como instrumento de avaliação das tendências
possíveis dos conflitos no campo no ano em curso e servem para contribuir com as análises
presentes no relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, a ser lançado em 2027. Os
levantamentos são realizados com base nas fontes coletadas pelas/os agentes da CPT em todo o Brasil e também as fontes coletadas por meio da clipagem junto à imprensa em geral, bem como em divulgações de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras da CPT ao longo do ano.


Vale ressaltar que o conceito de conflito para a CPT não é sinônimo de violência.
Seguindo o próprio fundamento teológico da tarefa de documentar, o conflito compreende um contexto de disputa, presente no cotidiano, que inclui as violências sofridas e também as
ações de resistência e enfrentamento que acontecem em diferentes contextos, na luta pela
terra, pela água, direitos e pelos meios de trabalho ou produção.

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