A Amazônia vive hoje uma das expressões mais dramáticas da crise socioambiental: o avanço das queimadas e incêndios florestais, intensificados por secas mais severas, mudanças climáticas e pressões crescentes sobre os territórios. Mais do que um fenômeno natural, o fogo na Amazônia é atravessado por relações sociais, disputas econômicas e violações de direitos — e seu impacto tem sido cada vez mais devastador para comunidades, biodiversidade e equilíbrio climático.
O relatório “Fronteiras do Fogo: um panorama do fogo na região amazônica”, publicado pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) em parceria com a GIZ, propõe uma reflexão urgente: é preciso compreender o fogo para além do “combate ao incêndio”, distinguindo o uso tradicional e controlado do fogo — que ocorre em contextos culturais e de subsistência — das queimadas associadas ao desmatamento, à grilagem e à expansão de atividades ilegais.
Nem todo fogo é igual: quando o manejo vira destruição
Em diversos contextos amazônicos, o fogo pode estar relacionado ao manejo agrícola tradicional, conduzido com conhecimento local e planejamento. Porém, o relatório alerta que as condições ambientais estão mudando, e o risco aumenta quando o fogo perde controle — especialmente em cenários de estiagem prolongada e degradação florestal.
O documento apresenta diferentes formas de ocorrência do fogo, incluindo: fogo cultural, de subsistência, ecológico e o chamado fogo predatório — este último associado a práticas que pressionam e destroem a floresta em benefício de interesses econômicos, muitas vezes vinculados à ocupação irregular de áreas, crimes ambientais e conflitos territoriais.
2024: um alerta regional sobre o avanço das áreas queimadas
Entre os dados analisados, o relatório destaca que 2024 teve um cenário especialmente crítico, com aumento expressivo de focos e da área queimada em diversos países amazônicos. O fogo volta a evidenciar que, em tempos de crise climática, a floresta se torna mais vulnerável e a devastação pode escalar rapidamente.
Esse cenário atinge diretamente os povos e comunidades amazônicas: a fumaça compromete a saúde, a contaminação ameaça os rios e o solo, as perdas atingem roças e modos de vida tradicionais, e os impactos climáticos ultrapassam fronteiras, afetando inclusive grandes centros urbanos.
Caminhos necessários: território, cooperação e manejo integrado
Diante do agravamento do problema, o relatório reforça que as respostas precisam ser integradas e estruturais. Não se trata apenas de reagir quando o fogo já está instalado, mas de fortalecer políticas públicas, redes comunitárias e mecanismos de prevenção e monitoramento.
Nesse contexto, ganha força a abordagem do Manejo Integrado do Fogo, que combina prevenção, planejamento, monitoramento, brigadas e valorização do conhecimento tradicional, articulando governo, territórios e sociedade civil — sempre com centralidade na proteção da vida e dos direitos dos povos amazônicos.
Uma tarefa coletiva: proteger a vida, a floresta e o futuro
A Amazônia que queima é um sinal de alerta: onde o fogo avança, também avançam conflitos, desigualdades e destruição. Por isso, enfrentar a crise do fogo exige também enfrentar suas causas — desmatamento, ilegalidades, fragilização da fiscalização ambiental e ameaças às comunidades.
A REPAM reafirma que defender a Amazônia é defender a vida. É fortalecer os territórios, apoiar iniciativas de base, promover justiça socioambiental e manter viva a resistência dos povos que há séculos cuidam da floresta.
A floresta em pé é futuro. E combater o fogo predatório é parte essencial dessa luta.

