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Projeto de ferrovia que liga Mato Grosso ao Pará acende alerta de lideranças indígenas e especialistas sobre riscos de colapso social e aumento da violência

A construção da Ferrogrão (EF-170), ferrovia de 933 quilômetros projetada para conectar o Mato Grosso ao Pará, tem sido apresentada como uma solução estratégica para o escoamento da produção agrícola. No entanto, para povos indígenas, organizações da sociedade civil e especialistas, o empreendimento levanta sérias preocupações quanto aos seus impactos sociais, ambientais e territoriais na Amazônia.

Com previsão de atravessar ao menos 14 municípios, como Itaituba, Novo Progresso e Trairão, a obra pode mobilizar cerca de 100 mil trabalhadores ao longo de sua execução. Esse fluxo intenso de pessoas tende a pressionar ainda mais a já fragilizada infraestrutura local, marcada por déficits históricos em saúde, educação e saneamento básico.

De acordo com análise de lideranças e especialistas, o cenário pode reproduzir dinâmicas observadas em grandes empreendimentos na região, como a usina de Belo Monte, em Altamira. O fim das obras, sem políticas estruturantes de continuidade, resultou no aumento do desemprego, da vulnerabilidade social e da expansão de economias ilícitas, como o garimpo ilegal, a grilagem de terras e o crime organizado.

Segundo Melillo Dinis do Nascimento, assessor jurídico e de incidência da REPAM-Brasil, há risco de repetição desse modelo:

“Quando a obra for finalizada, a tendência é que milhares de trabalhadores sejam deixados à própria sorte, sem alternativas econômicas. O histórico da região mostra que isso alimenta ciclos de violência e ilegalidade.”

Dados recentes reforçam essa preocupação. O município de Altamira, impactado por Belo Monte, figura entre os primeiros do país em conflitos por terra, evidenciando como grandes projetos, sem planejamento social adequado, podem intensificar tensões e desigualdades.

Para os povos originários, a Ferrogrão representa ainda um processo de fragmentação territorial. Lideranças dos povos Kayapó e Panará denunciam que a ferrovia pode facilitar o avanço do desmatamento, da grilagem e de invasões em territórios indígenas, além de enfraquecer a proteção das comunidades.

Além disso, os impactos atingem diretamente a segurança alimentar e os modos de vida tradicionais. A substituição da biodiversidade por monoculturas e as alterações nos cursos d’água comprometem a autonomia das comunidades, que dependem da floresta para sua subsistência.

Diferentemente de outros empreendimentos pontuais, a Ferrogrão impõe impactos ao longo de toda a sua extensão, criando um corredor de pressão sobre territórios, cidades e populações já vulnerabilizadas.

Diante desse cenário, a REPAM-Brasil reforça a necessidade de que projetos de infraestrutura na Amazônia sejam avaliados a partir de uma perspectiva integral, que considere não apenas os ganhos econômicos, mas, sobretudo, os direitos dos povos, a proteção dos territórios e a promoção da justiça socioambiental.

A pergunta que permanece é: quem arcará com o custo humano e social de mais esse empreendimento na Amazônia?

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