Webinar reuniu lideranças de movimentos sociais e organizações da sociedade civil para refletir sobre políticas públicas, proteção dos territórios, participação das mulheres e desafios socioambientais da Amazônia
A REPAM-Brasil realizou, nesta quarta-feira, 16 de setembro, o webinar “Eleições e Amazônia: que futuro queremos construir?”, reunindo representantes de organizações e movimentos sociais para um diálogo sobre os desafios vividos nos territórios amazônicos, a atuação do poder público e a importância da participação cidadã nos processos democráticos.
A atividade integra as ações das campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia, iniciativas que buscam ampliar o debate público sobre a realidade amazônica e fortalecer a presença das demandas dos povos e comunidades da região nas discussões sobre o futuro do país.
Na abertura, a secretária executiva da REPAM-Brasil, Irmã Irene Lopes, destacou a importância de criar espaços de escuta e reflexão em um momento decisivo para a sociedade brasileira.
“Queremos ouvir e refletir sobre esse momento tão importante que estamos vivendo”, afirmou.
A mediação foi conduzida por Joana Menezes, que reforçou a missão da Rede Eclesial Pan-Amazônica de escutar os territórios, defender os povos e promover o cuidado com a Casa Comum.
Proteção dos territórios e acesso às políticas públicas
A liderança sindical e territorial Eliane Gentil chamou atenção para a realidade das comunidades tradicionais e para as dificuldades enfrentadas por quem vive em áreas onde serviços e políticas públicas ainda chegam de maneira insuficiente.
Entre os desafios citados por Eliane estão a proteção dos territórios tradicionais, as dificuldades de acesso às comunidades, a violência contra lideranças e mulheres, além da necessidade de infraestrutura, planejamento público e políticas que contribuam para melhorar a qualidade de vida das populações.
Ela também ressaltou iniciativas construídas pelas próprias comunidades, como projetos de agroecologia, economia solidária, fortalecimento de associações e redes comunitárias, que ajudam a enfrentar algumas dessas dificuldades.
Para Eliane, os períodos eleitorais também representam uma oportunidade para que a população conheça as propostas e trajetórias de quem pretende ocupar cargos públicos e observe de que maneira temas relacionados à Amazônia, aos direitos das comunidades e às políticas públicas aparecem nessas agendas.
“É importante conhecer quem são nossos representantes, quais políticas defendem e qual compromisso possuem com nossos territórios e com a Amazônia”, destacou.
Mulheres, democracia e autonomia
Representando a Rede de Mulheres Teresianas, Rosalina Pereira Izoton trouxe para o centro da conversa os desafios enfrentados pelas mulheres nos territórios, especialmente aquelas que vivem em situações de maior vulnerabilidade social.
Moradora de Marabá (PA), Rosalina destacou a importância dos processos de formação cidadã desenvolvidos pelas organizações de mulheres e defendeu a ampliação de políticas públicas voltadas à segurança, à saúde, à autonomia econômica e ao enfrentamento das violências.
Segundo ela, muitas mulheres encontram dificuldades para romper ciclos de violência justamente pela falta de oportunidades de trabalho, renda e formação.
Nesse contexto, Rosalina apontou a necessidade de iniciativas de capacitação, empreendedorismo e geração de renda, além de políticas de saúde e acompanhamento psicossocial.
“Quando as mulheres têm formação cidadã e conhecimento, passam também a conhecer seus direitos e a saber como reivindicá-los”, ressaltou.
Ela destacou ainda o papel das redes de mulheres como espaços de acolhida, fortalecimento da autoestima e construção coletiva de alternativas para as comunidades.
Conhecimentos tradicionais e enfrentamento à crise climática
O professor Guilherme Carvalho, da FASE Amazônia, ampliou o debate para questões relacionadas à geopolítica, às mudanças climáticas e aos modelos de desenvolvimento que impactam os territórios amazônicos.
Em sua reflexão, Carvalho destacou o papel histórico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação da biodiversidade e na construção de conhecimentos desenvolvidos ao longo de gerações.
Para ele, reconhecer esses saberes é fundamental para pensar respostas à crise climática e construir estratégias que partam da realidade dos próprios territórios.
Entre os caminhos apresentados estão a proteção do solo, garantia da segurança alimentar e nutricional, diversificação da produção, preservação das sementes, acesso à água, fortalecimento das formas comunitárias de produção e proteção dos territórios.
Carvalho também chamou atenção para a necessidade de transformar experiências desenvolvidas pelas comunidades em políticas públicas duradouras.
“Um grande desafio é fazer com que as alternativas que vêm sendo construídas nos territórios possam se transformar efetivamente em políticas públicas”, afirmou.
Mulheres na linha de frente dos territórios
Durante sua participação, Guilherme destacou ainda a presença das mulheres nos processos de mobilização social na Amazônia. Segundo ele, são elas que, em muitos territórios, estão à frente de organizações comunitárias, iniciativas produtivas, mobilizações socioambientais e ações relacionadas às mudanças climáticas.
O tema da saúde mental também ganhou espaço no diálogo. Participantes destacaram a necessidade de ampliar políticas e redes de apoio diante das situações de violência, sobrecarga e adoecimento enfrentadas especialmente por mulheres e lideranças comunitárias.
Rosalina lembrou que esse já é um dos temas trabalhados pela Rede de Mulheres Teresianas e reforçou a importância de reivindicar acompanhamento psicológico nos serviços públicos e outros espaços de atendimento às comunidades.
Participação e formação cidadã
Na etapa final do webinar, participantes apresentaram perguntas e contribuições sobre formação política, educação, cultura, universidades e fortalecimento das organizações sociais.
O debate ressaltou que a participação cidadã não se limita ao momento do voto. Ela também se constrói no cotidiano das comunidades, nos movimentos sociais, nas organizações populares e nos espaços de controle social e formulação de políticas públicas.
Experiências como festas e manifestações culturais comunitárias, resgate da memória dos mais velhos, valorização dos conhecimentos tradicionais, iniciativas de produção de alimentos e articulações com universidades foram lembradas como instrumentos importantes para fortalecer identidades, vínculos comunitários e capacidade de organização dos territórios.
Ao encerrar sua participação, Eliane Gentil destacou que momentos como o webinar contribuem para renovar forças e conectar diferentes experiências.
“São espaços que nos alimentam de esperança, mas também nos fortalecem diante dos desafios e nos ajudam a construir estratégias nos territórios”, afirmou.
Com a realização do webinar, a REPAM-Brasil reafirma seu compromisso com a escuta dos povos e comunidades amazônicas e com a criação de espaços de diálogo sobre democracia, direitos, políticas públicas, justiça socioambiental e cuidado com a Casa Comum.