Neste 8 de maio completa-se um ano do início do pontificado do Papa Leão XIV, marcado por um chamado à construção de uma Igreja com rosto amazônico, ao cuidado da criação, à defesa da Amazônia e a uma ecologia integral que escuta “o clamor da terra e dos pobres”. Estes são sete eixos que têm marcado seu magistério eclesial, ecológico, cultural e social.
Por Julio Caldeira IMC *
Ao completar um ano do início de seu pontificado, o Papa Leão XIV reafirmou o cuidado da criação como um dos eixos centrais de seu magistério. Seguindo o caminho aberto pelo Papa Francisco com as encíclicas Laudato si’ e Querida Amazônia, o Pontífice insistiu que a crise climática, a destruição da Amazônia e o sofrimento dos povos mais vulneráveis são desafios inseparáveis da missão evangelizadora da Igreja.
Em diversas mensagens, homilias e discursos pronunciados entre 2025 e 2026, Leão XIV apresentou a Amazônia como “um símbolo vivo da criação”, chamou a escutar “o clamor da terra e dos pobres” e exortou a promover uma conversão ecológica capaz de transformar os estilos de vida, a economia e as relações humanas. Além disso, defendeu o papel dos povos indígenas, a necessidade de uma Igreja com rosto amazônico e a urgência de construir uma justiça ecológica, social e ambiental.
Estes são sete chamados fundamentais do Papa Leão XIV para a defesa da Amazônia e o cuidado da casa comum:
1. A Amazônia é um símbolo vivo da criação e um chamado urgente à humanidade
Para Leão XIV, a Amazônia não é apenas um território geográfico, mas um sinal espiritual e profético para o mundo inteiro. Em sua videomensagem às Igrejas do Sul Global reunidas em Belém, afirmou que “a Amazônia continua sendo um símbolo vivo da criação com uma urgente necessidade de cuidado”. O Papa adverte que a crise climática já se manifesta em “inundações, secas, tempestades e um calor implacável”, afetando especialmente os mais pobres. Por isso, insiste que ainda “há tempo para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 °C”, mas a humanidade deve agir “com rapidez, fé e profecia”.
(Videomensagem às Igrejas particulares do Sul do Mundo reunidas no Museu Amazônico de Belém, COP30, 17 de novembro de 2025).
2. O cuidado da criação exige uma verdadeira conversão ecológica
Leão XIV retoma com força o chamado da encíclica Laudato si’ para mudar o coração e o estilo de vida. Na homilia da Missa pela Custódia da Criação, celebrada no Borgo Laudato si’, afirmou que muitos desastres naturais são consequência “dos excessos do ser humano, por causa de seu estilo de vida”. Por isso, pediu “a conversão de muitas pessoas, tanto dentro como fora da Igreja, que ainda não reconhecem a urgência de cuidar da nossa casa comum”. Para o Papa, a crise ecológica não é apenas um problema técnico ou político, mas também espiritual e moral, fruto da ruptura da relação com Deus, com o próximo e com a terra.
(Homilia na Missa pela Custódia da Criação, Borgo Laudato si’, Castel Gandolfo, 9 de julho de 2025).
3. A defesa do meio ambiente está inseparavelmente unida à justiça social e ao cuidado dos pobres
Leão XIV insiste que a destruição ambiental atinge com mais força aqueles que vivem em situação de pobreza e exclusão. Em sua Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025, afirma que “destruir a natureza não prejudica a todos do mesmo modo”, mas sobretudo “os mais pobres, os marginalizados e os excluídos”. Além disso, destaca que “é emblemático o sofrimento das comunidades indígenas”. Por isso, a ecologia integral implica escutar simultaneamente “o clamor da terra e dos pobres”, promovendo uma justiça ambiental que é também social, econômica e humana.
(Mensagem para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025; Homilia na Missa pela Custódia da Criação, 2025).
4. Os povos indígenas têm um lugar central no futuro da Igreja e da humanidade
Em sua mensagem às Redes dos Povos Originários, Leão XIV reconhece que a história e a espiritualidade dos povos indígenas constituem “uma voz insubstituível dentro da comunhão eclesial”. Destaca que a Igreja deve dialogar, aprender e enriquecer-se com a sabedoria ancestral dos povos originários. Também recorda que Deus semeou “sementes do Verbo” em todas as culturas, e que a evangelização autêntica não destrói as identidades culturais, mas as purifica e as faz florescer. Por isso, anima os povos indígenas a apresentar “com coragem e liberdade sua própria riqueza humana, cultural e cristã”.
(Mensagem às Redes dos Povos Originários e à Rede de Teólogos da Teologia Índia por ocasião do Ano Jubilar, 12 de outubro de 2025).
5. A Igreja amazônica deve ter um rosto próprio, sinodal e profético
Leão XIV reafirma o caminho aberto pelo Sínodo para a Amazônia e anima a construir uma Igreja com “rosto amazônico”. Em sua mensagem à CEAMA, assinala que a Igreja é chamada a ser “um sinal de unidade na diversidade e refúgio seguro, que gera e protege a vida”. Também destaca a importância da inculturação da fé, afirmando que a Igreja “se enriquece com novas expressões e valores” quando acolhe a diversidade cultural da Amazônia. Além disso, convida os cristãos a assumir um papel profético diante das situações de abuso, exploração e destruição ambiental que ameaçam a região amazônica.
(Videomensagem à VI Assembleia da Conferência Eclesial da Amazônia – CEAMA, Bogotá, março de 2026).
6. A ecologia integral requer transformar a economia e as estruturas injustas
O Papa denuncia com clareza as “estruturas de pecado” que geram pobreza, exclusão e devastação ambiental. Na exortação Dilexi te, critica “a ditadura de uma economia que mata” e um sistema no qual “os lucros de poucos crescem exponencialmente” enquanto milhões vivem na miséria. Da mesma forma, em sua mensagem à The Economy of Francesco, convida a construir “uma nova forma de estar juntos e de fazer negócios que não produza resíduos, mas bem-estar material e espiritual”. Para Leão XIV, o cuidado da casa comum exige uma economia a serviço da dignidade humana, do bem comum e da fraternidade universal.
(Exortação apostólica Dilexi te, nn. 90-97; Mensagem à The Economy of Francesco, novembro de 2025).
7. A esperança cristã impulsiona a semear paz e vida nova para o planeta
Leão XIV propõe uma espiritualidade da esperança baseada na imagem evangélica da semente. Em sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, recorda que os cristãos são chamados a ser “sementes de paz e esperança”. Embora o mundo viva crises ecológicas, guerras e desigualdades, o Papa insiste que Deus continua agindo na história e fazendo “novas todas as coisas”. Por isso, anima a trabalhar com perseverança, justiça e ternura para fazer germinar processos de reconciliação, cuidado e vida em abundância para toda a criação.
(Mensagem para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025; Videomensagem à CEAMA, 2026).
* Pe. Julio Caldeira é missionário da Consolata na Amazônia e vice-presidente da REPAM. Autor dos livros “Avancen para aguas más profundas” e “Iglesia con rostro amazónico” (Editorial CELAM)

