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Por Profa. Márcia Oliveira 

No silêncio das fronteiras, nos becos das cidades, nos anúncios aparentemente inofensivos da internet, vidas estão sendo negociadas. Mulheres, crianças, adolescentes, migrantes. Gente com sonhos, histórias, famílias. Gente como eu, como você. Gente que desaparece sem alarde, sem notícia, sem volta. Essa é a face brutal do tráfico de pessoas — uma chaga aberta, que ainda sangra diariamente em nossa sociedade. 

Segundo dados da Organização Mundial do Trabalho, o tráfico de pessoas movimenta cerca de 32 bilhões de dólares por ano. Sim, bilhões. É o terceiro crime mais lucrativo do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas. Mas não nos enganemos: não estamos falando apenas de números. Estamos falando de corpos violentados, vozes caladas, vidas que viram mercadoria. 

79% das vítimas são exploradas sexualmente. O restante é destinado ao trabalho escravo, ao tráfico de órgãos, à servidão doméstica. E tudo isso se sustenta sobre uma base concreta e cruel: pobreza, racismo, desigualdade, exclusão. 

Essas vítimas não caem em redes criminosas por ingenuidade. Elas caem porque têm fome. Porque não têm oportunidades. Porque foram convencidas de que “do outro lado” haveria um emprego, uma chance, um recomeço. O que encontram, no entanto, é um cativeiro sem paredes visíveis, mas com grilhões reais: medo, violência, apagamento. 

Neste 30 de julho, Dia Mundial e Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, precisamos parar de tratar esse crime como se fosse uma exceção, ou uma realidade distante. O tráfico de pessoas está entre nós. Está na falta de políticas públicas, na ausência do Estado nas periferias, nas promessas enganosas que circulam impunes nas redes sociais, no silêncio cúmplice de quem se recusa a enxergar. 

É urgente investir em prevenção. Isso significa fortalecer os direitos básicos: educação, saúde, emprego digno, acolhimento às populações mais vulneráveis. Significa também informar, capacitar, denunciar. Incluir o tema nas escolas. Formar profissionais da assistência, da saúde, da segurança pública. Monitorar a atuação dos criminosos no ambiente digital. E, sobretudo, dar nome, rosto e dignidade às vítimas

O tráfico de pessoas é a escravidão contemporânea. E ela só continuará existindo enquanto for mais fácil ignorá-la do que combatê-la. Que este 30 de julho nos convoque à ação. Porque nenhuma vida deveria ser posta à venda. Porque ninguém deveria ser reduzido a um número numa planilha do crime. 

Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em gênero, identidade e cidadania; Cientista social, licenciada em Sociologia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônia (REPAM-Brasil) e da Cáritas Brasileira.   

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