A atuação do Frei João Messias Sousa OFM, membro da custodia São Benedito da Amazônia, franciscano com mais de duas décadas de presença junto aos povos indígenas da Amazônia — especialmente o povo Munduruku — revela uma leitura profunda e crítica sobre o Decreto 12.600 e seus impactos. Para ele, o que está em jogo não é apenas uma política pública ou um projeto logístico, mas uma disputa entre duas visões radicalmente distintas de mundo: de um lado, a lógica da mercantilização da natureza; de outro, a compreensão do território como extensão da própria vida.
Segundo Frei Messias, os povos indígenas não defendem os rios como um recurso externo, mas como parte inseparável de sua existência. “Quando o indígena defende um rio, ele está defendendo o seu próprio corpo. A água é o sangue, a terra é o coração que pulsa. Não se trata de um objeto, mas da própria vida”, afirma. Essa visão confronta diretamente o modelo que transforma rios em corredores de exportação e territórios em infraestrutura logística voltada à acumulação econômica.
Na sua avaliação, o Decreto 12.600 representa o avanço de um projeto que ignora a dimensão sagrada e coletiva da relação entre os povos e seus territórios, favorecendo interesses que priorizam o lucro em detrimento da vida. Essa crítica ecoa o posicionamento dos próprios povos indígenas, que afirmam que os rios Tapajós, Madeira e Tocantins são fonte de identidade, sustento e memória, e não podem ser reduzidos a vias de transporte para commodities.
Confira aqui – CARTA ABERTA DOS POVOS DOS RIOS…
Frei Messias também destaca o papel histórico da Igreja como presença solidária, e não como protagonista, mas como parceira na escuta e no apoio às lutas dos povos. Inspirado no carisma franciscano e no chamado do Papa Francisco à escuta ativa, ele afirma que a missão da Igreja é caminhar junto aos povos, acolhendo seus clamores e reconhecendo que a defesa do território é, antes de tudo, a defesa da dignidade humana e da criação.
Para o frei, a mobilização em curso não é apenas uma resistência local, mas um testemunho que interpela toda a sociedade. Ele acredita que os povos indígenas têm muito a ensinar à humanidade sobre o cuidado com a Terra nossa Casa Comum e sobre formas de existência baseadas na partilha, no equilíbrio e no respeito à criação. Nesse sentido, a luta contra o Decreto 12.600 ultrapassa fronteiras territoriais e se torna um chamado ético global: defender os rios é defender o futuro comum.

