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A construção de uma Igreja cada vez mais encarnada na realidade, nas culturas e nas espiritualidades dos povos da Amazônia é um dos caminhos impulsionados pelo Sínodo para a Amazônia. Nesse horizonte, a elaboração de um Rito Amazônico surge como possibilidade de reconhecer e valorizar práticas litúrgicas, símbolos e expressões de fé que foram sendo vividos e transmitidos pelas comunidades ao longo de gerações.

Para aprofundar essa reflexão, a Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM-Brasil conversou com Daniel Carvalho, pesquisador que dedicou sua tese ao estudo do Rito Amazônico e cuja pesquisa foi reconhecida com o Prêmio Capes de Teses 2026. O trabalho percorre diferentes campos do conhecimento e dialoga com a história da evangelização na Amazônia, a liturgia, a cultura dos povos amazônicos e os caminhos abertos pelo Sínodo para a Amazônia.

Na entrevista, Daniel explica o que significa falar em um Rito Amazônico, aborda a relação entre a tradição da Igreja e as culturas e espiritualidades dos povos da região e reflete sobre a importância do reconhecimento acadêmico de uma pesquisa profundamente conectada aos desafios e horizontes de uma Igreja com rosto amazônico.

  1. Daniel, o que é o Rito Amazônico e por que a construção de um rito próprio é importante para a Igreja e para os povos que vivem na Amazônia? 

Rito Amazônico é uma proposta do Sínodo para a Amazônia. Mas, o verbo utilizado pelo Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia (nota de rodapé n. 62), e que também figura no Documento Final do sínodo (DFSA, 116-119) não é construir, e sim elaborar. Um rito nunca é construído. É herdado, isto é, transmitido de geração em geração.  

Em alguns casos, no entanto, o rito pode ser elaborado (como quando um missionário, carregado com sua fé e cultura, anuncia o Evangelho a um povo de outra cultura e fé e, para isso, precisa identificar pontos de intersecção entre seus próprios ritos e aqueles do povo missionado a fim de transmitir a mensagem fundamental do Evangelho) ou reformado (como a Igreja Católica fez no processo de homogeneização dos ritos latinos no contexto do Concílio de Trento, entre 1545 e 1563; e também por ocasião do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, quando recolocou a liturgia em seu lugar de fonte da fé cristã e restaurou as formas rituais mais originárias do cristianismo).  

A palavra rito, na Igreja, tem vários significados. E é fundamental que saibamos distingui-los:  

1) Rito é liturgia, isto é, corresponde à ação de repetir os gestos e as palavras de Jesus, tendo como base os eventos bíblicos – pensemos nos apóstolos que, depois da morte e ressurreição do Senhor, viajaram para várias regiões do Império Romano e de seu entorno e celebraram a Ceia em memória de Jesus Cristo, conforme ele pedira;  

2) Rito é o conjunto de práticas, normas e costumes de uma igreja – pensemos, por exemplo, nas igrejas que decorreram das ações missionárias de diferentes mensageiros e que resultaram na consolidação de ritos, como o latino (em Roma), o copta (no Egito), o bizantino (em Constantinopla), e outros 21 que constituem as chamadas igrejas sui iurisSui iuris, pode ser traduzido por direito próprio, e significa que essas igrejas possuem certa autonomia jurídica em relação ao primado do papa, o que se dá por meio da liderança dos patriarcas, arcebispos maiores, metropolitas e outros. Com exceção da Igreja Romana, que é majoritária no Brasil, as demais igrejas sui iuris têm origem na parte oriental do antigo Império Romano e, algum momento da história, romperam com o papa e retornaram, posteriormente, à comunhão com a Igreja de Roma preservando os costumes, línguas, vestes e formas rituais pregressas. A esse conjunto, somam-se as famílias litúrgicas que compõem a Igreja latina (de Roma) mas não celebram o rito romano, como a igreja de Milão, na Itália, que celebra o Rito Ambrosiano, e a de Toledo, na Espanha, que celebra o Rito Moçárabe. Rito, nesse caso, pode significar Igreja de direito próprio ou família litúrgica;  

3) Além da celebração litúrgica propriamente dita (por exemplo, o rito da Missa e o rito do Batismo), rito diz respeito também a uma parte específica da celebração, como o rito da comunhão dentro da Missa, ou o rito da unção no Batismo. Também os livros litúrgicos de capa vermelha podem ser chamados de rito ou ritual. É o caso, por exemplo, de quando dizemos: “o Missal contém (prescreve) o rito da missa” ou “o Missal é o rito da missa”.  

O Rito Amazônico, quando solicitado no Sínodo para a Amazônia, mencionava o modelo das igrejas orientais, aventando a possibilidade de uma jurisdição análoga àquela das igrejas sui iuris. Essa jurisdição parece ter sido ereta sob a forma da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama). E não se trataria, portanto, da criação de um patriarcado, mas, de um território onde a inculturação litúrgico-sacramental, ministerial e jurídica pudesse corresponder de forma mais adequada às necessidades pastorais das comunidades existentes nos rincões pan-amazônicos.  

Quando a Ceama instituiu a Comissão do Rito Amazônico, o trabalho desenvolvido, entre 2021 e 2025, por mais de cem pesquisadores, teólogos, missionários, agentes de pastoral e consultores, a concepção sobre a proposição do Rito Amazônico pareceu apontar mais às práticas litúrgicas oriundas do processo de evangelização na Amazônia, resultantes das ações missionárias de diversas congregações religiosas em contato com os quase 400 povos da região. O referido rito, nesse sentido, deveria resguardar, jurídica e pastoralmente, as práticas seculares dos povos originários convertidos ao catolicismo e ameaçadas pelo clericalismo (que desconsidera as tradições populares e inculturadas da fé cristã) e pelo neopentecostalismo que avança sobre os povos amazônicos provocando verdadeiros etnocídios, isto é, mantando a cultura e o espírito próprio de cada povo. 

Nesse sentido, a proposição do Rito Amazônico é importante para os povos da região ao passo que visa garantir a sobrevivência da fé recebida através dos missionários e transmitida de geração em geração dentro dos moldes culturais próprios de cada povo. Além disso, o rito cristão, ao não ser exculturado (ao contrário de inculturado) em relação as culturas dos povos que o celebram, garantem a preservação da própria cultura autóctone que sucumbe, aos poucos, sob a globalização e o avanço do capitalismo selvagem que se apresenta na forma do desmatamento predatório, da mineração envenenadora, da expropriação dos territórios, do narcotráfico e de todas as formas de violência que dizimam os povos originários na Amazônia. 

Para a Igreja, a elaboração do Rito Amazônico poderia significar a recuperação de uma prática que está oficialmente em desuso desde o século IV, quando, sob o Império Romano e à luz dos esquemas gregos e latinos que se desenvolveram sobre as realizações judaico-cristãs, os esquemas litúrgicos foram cristalizados e, desse modo, reduziram a capacidade viva de diálogo com seus contemporâneos. Isso se deu, inclusive, na língua: nos primórdios, quando o povo falava grego, a liturgia era celebrada em grego. Depois, quando o povo passou a falar latim, a liturgia migrou ao latim. Quando o latim caiu em desuso e em seu lugar imergiram línguas como o italiano, o português, o francês e o espanhol, a liturgia, cristalizada como estava, não deixou de falar o latim por cerca de um milênio e meio, afastando-se assim da vida do povo que a celebrava. Além disso, a elaboração do Rito Amazônico corresponderia adequadamente à continuidade da reforma litúrgica empenhada pelo Concílio Vaticano II no que diz respeito à vivacidade litúrgica como ação do povo sacerdotal tornado cristão pela graça do Batismo, especialmente em contextos de missão e de povos indígenas. Em sentido amplo, essa abertura ritual na pan-amazônia significaria a abertura da Igreja ao diálogo renovado com os povos e as culturas de hoje. 

  1. De que maneira o Rito Amazônico pode incorporar as culturas, espiritualidades, símbolos e modos de vida dos povos amazônicos sem perder sua comunhão com a Tradição da Igreja Católica? 

Como eu disse anteriormente, o Rito Amazônico não diz respeito à continuidade da missão evangelizadora que tem fins proselitistas, mas à preservação da fé cristã, já recebida e celebrada pelos povos da pan-amazônia, e que, eventualmente, assumem, no contexto da liturgia cristã, alguns símbolos próprios de suas culturas. Um exemplo bastante difundido é o uso de ervas e resinas autóctones, como o maruai, o breu branco e o chicantar, amplamente utilizados nos rituais de purificação e defumação dos povos indígenas, e que substituem os incensos industrializados nas celebrações cristãs. Aliás, vale recordar que o uso do incenso não tem origens cristãs, mas pagãs. No livro dos Atos dos Apóstolos (17,22-34) Paulo, ao se encontrar com os filósofos e cidadãos de Atenas, relaciona o Deus cristão ao deus desconhecido que eles já cultuavam. O anúncio do Evangelho se deu sempre assim: acomodando a crença e os valores cristãos à crença e aos valores da cultura com quem os missionários entram em diálogo. Nesse processo, são naturalmente incorporados traços da cultura e da espiritualidade autóctones. Afinal, não existe fé sem cultura, e nem cultura sem fé. Esse diálogo e os necessários esforços de adaptação e inculturação não correspondem a uma traição à Tradição da Igreja. Antes o contrário, corresponde ao reencontro da regra de oração e missão dos padres da Igreja, que cultivavam o contato vivo com as gentes. Essa, a nosso ver, é a verdadeira Tradição viva da Igreja: anunciar Cristo, crucificado-ressuscitado, aos homens e mulheres do nosso tempo, em seus lugares e em suas culturas. Ao oferecer o tesouro do Evangelho, a Igreja se abre também para receber os dons que cada povo pode oferecer. O Papa Francisco, na Laudato Si’, colocou a relação dos povos indígenas com a natureza como um modelo – bastante franciscano – que os cristãos deveriam aprender. Esse intercâmbio, iluminado pela sabedoria do Evangelho, não empobrece ninguém, mas enriquece a ambos. 

  1. Seu trabalho sobre o Rito Amazônico recebeu um importante reconhecimento. O que essa premiação representa para você e, principalmente, para o avanço das reflexões sobre uma Igreja com rosto amazônico? 

As pesquisas, de modo geral, buscam contribuir para que a percepção sobre seu objeto de estudo seja alargada de modo a revelar o máximo possível de nuanças que o circundam. Meu trabalho buscou compreender como os cristãos da região pan-amazônica compreendem como positiva a proposição do Rito Amazônico e, como, ao contrário, têm dificuldade de compreendê-lo os especialistas “sábios e entendidos” em matéria litúrgica, eclesiológica e missiológica que ocupam instâncias de decisão no seio da Igreja Católica. Por ser feita na PUC Goiás, que é uma instituição de ensino católica e, ao mesmo tempo, regida pelas normativas do Ministério da Educação, minha pesquisa precisava corresponder às questões eclesiásticas, com as quais busquei interagir, e às questões metodológicas exigidas pela pesquisa acadêmica.  

Por essa razão, a tese precisou ser redigida incluindo todas as formas de elucidação possíveis. Para isso, foram abordados de forma extensiva temas como: 1) a história das liturgias católicas; 2) a história da evangelização e da Igreja Católica na Amazônia; 3) a contextualização dos processos em torno da realização do Sínodo para a Amazônia; 4) a identificação e a evidenciação do contraste entre o modo de pensar dos povos amazônicos e aquele próprio da epistemologia ocidental, onde estamos inseridos; e 5) a análise dos argumentos contrários à proposição do Rito Amazônico como forma de evidenciar alguns contrapontos possíveis de serem levantados a eles. Nesse sentido, a pesquisa abordou áreas de conhecimento variadas: da História à Teologia, da Antropologia à Filosofia, da Liturgia à Eclesiologia.  

O Prêmio Capes de Teses 2026 foi uma grata e inesperada surpresa. Inúmeras outras pesquisas, de enorme relevância, também foram defendidas na forma de tese em 2025. Essa premiação, no entanto, revela, também em âmbito estritamente acadêmico, a importância das ações da Igreja Católica nos contextos amazônicos. Além disso, a premiação não pode ser tomada como resultado de um esforço unilateral. Ela é resultado de vários processos, nos quais eu pude estar envolvido, mas, que foram e são desenvolvidos pela Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, pela REPAM-Brasil, pela Ceama, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Goiás, pela Rede CELEBRA de animação litúrgica, pela Irmandade dos Mártires da Caminhada Latino-americana, pelos financiamentos da Capes (da qual fui bolsista), e por incontáveis pessoas que contribuíram de modo decisivo para a realização desta pesquisa. Tomo a liberdade de mencionar alguns: o prof. José Reinaldo F. Martins Filho, meu orientador de pesquisa; o prof. Andrea Grillo, que me acompanhou no estágio doutoral no Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma; Agenor Brighenti, efetivamente o coordenador da Comissão para o Rito Amazônico da Ceama; Damásio Medeiros, liturgista amazônida; Márcia Oliveira, doutora em cultura amazônica, e inúmeros outros sem os quais a pesquisa não teria chegado à qualidade que possui. O trabalho é de todos nós. E, por isso, a premiação também resguarda esse caráter coletivo e colaborativo.  

Com o texto da tese, a Igreja de rosto amazônico encontra um subsídio que elabora, de forma condensada, sua própria história e alguns de seus possíveis horizontes. Embora nossa pesquisa não possua uma finalidade pastoral em si mesma, os temas que aborda estão todos imiscuídos nos contextos mais atuais da pauta sobre a missão da Igreja na Amazônia hoje. E, nesse sentido, tem potencial para colaborar com as reflexões necessárias das dioceses, prelazias e vicariatos que compõem a região circunscrita pela Ceama. 

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