Um levantamento recente revela um dado alarmante sobre o uso da água no Brasil: cerca de 50 grupos empresariais concentram o direito de captar aproximadamente 5,2 trilhões de litros de água por ano. Esse volume seria suficiente para abastecer 93,8 milhões de pessoas, quase metade da população brasileira.
O dado expõe uma contradição evidente. Enquanto campanhas públicas incentivam a população a economizar água no cotidiano, o maior volume de uso está concentrado em grandes empreendimentos econômicos, especialmente ligados ao agronegócio, ao setor sucroalcooleiro e à indústria de papel e celulose.
Essa concentração ocorre por meio das chamadas outorgas de uso da água, autorizações concedidas pelo poder público que permitem a captação em rios, lagos e aquíferos. No caso analisado, tratam-se de outorgas federais, emitidas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), voltadas a corpos hídricos que atravessam mais de um estado.
Os dados mostram ainda que houve crescimento expressivo nas concessões recentes e que a maior concentração dessas autorizações está em estados como Minas Gerais, Bahia e São Paulo.
Esse cenário ganha ainda mais gravidade diante do avanço das mudanças climáticas e do desmatamento, que já impactam diretamente a disponibilidade de água, como evidenciado por eventos extremos recentes, incluindo secas severas na Amazônia.
Mais do que uma questão de gestão, os dados revelam um desafio de justiça socioambiental. A água, elemento essencial à vida, tem seu acesso marcado por desigualdades profundas, colocando em evidência a necessidade de revisão dos modelos de uso, regulação e distribuição dos recursos hídricos no país.
Para os territórios amazônicos e comunidades tradicionais, essa realidade reforça a urgência de defender a água como bem comum, garantindo seu uso sustentável, equitativo e orientado pelo cuidado com a vida e com os ecossistemas.

