Por Equipe Fundação SM e Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil)
05 de setembro de 2026
Em 2020, o Papa Francisco publicou a exortação Querida Amazônia, na qual expressou as ressonâncias que o percurso sinodal provocou sobre o compromisso de cuidar da Amazônia e dos seus povos. Nela, o líder religioso apresentou quatro sonhos para a Amazônia: um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico e um sonho eclesial. Por motivos da Semana da Amazônia 2026, o texto indaga sobre o “sonho educativo” que o Papa deixou nas entrelinhas.
Imagem: Realidade da Amazônia, cidade de Belém, Pará.
Fonte: Acervo da Rede Eclesial Pan-Amazônica, REPAM-Brasil, 2026.
A exortação do Papa Francisco não se dirige unicamente aos cristãos e, sim, a todas as pessoas de boa vontade. Podemos definir estas últimas como pessoas que têm expectativas de bem, isto é, esperança. Pessoas como essas despertaram atenção, estima, solicitude, admiração e reconhecimento pela Amazônia (n.5).
O Papa traduziu essas expectativas de bem em quatro sonhos: social, cultural, ecológico e eclesial. Comentemos brevemente cada um deles.
O sonho social integra a luta pelos direitos dos povos da Amazônia. Sugere que os povos nativos sejam escutados e respeitados, e que aos empobrecidos seja garantida a sua dignidade (n.7). É um sonho que reivindica justiça social e que critica as diversas realidades de desigualdade: a devastação das florestas e as consequências socioambientais que isso provoca, a apropriação dos territórios dos povos indígenas e o desenraizamento cultural que os força a emigrar para as periferias da cidade, a imposição de visões monoculturais de desenvolvimento e de práticas colonizadoras que oprimem e marginalizam, entre outras.
O sonho cultural “é promover a Amazônia […] de modo que ela própria revele o melhor de si” (n.28), que preserve suas raízes e fortaleça suas identidades. O Papa Francisco refere-se aos povos nativos como “depositários de preciosas memórias pessoais, familiares e coletivas” (n.35), e reconhece que muitos deles “desenvolveram um tesouro cultural em conexão com a natureza, com forte sentido comunitário” (n.36). Chama-nos a respeitarmos a liberdade dos povos indígenas afirmarem seus valores e a sermos corresponsáveis pela diversidade (n.37).
O sonho ecológico desperta nossa atenção para perceber que nessa terra e céu “a vida diária é sempre cósmica” (n.41), que a Amazônia é um lugar teológico (n.57), que as florestas e rios não são recursos, mas seres vivos com os quais é possível se relacionar. Adverte-nos de que “abusar da natureza significa abusar dos antepassados” (n.42), dos outros seres vivos e de Deus, hipotecando os nossos futuros. O conteúdo do sonho está em escutar a voz da floresta e dos rios, que nos alertam que o desequilíbrio socioambiental, o despertencimento da nossa relação com a natureza e a falta de contemplação nos levam a uma “destruição recíproca” (n.59).
O sonho eclesial, ainda que proposto a partir da Igreja Católica, aponta elementos que a transcendem e que nos convidam a horizontes comuns. Indica-nos que precisamos “crescer em uma cultura do encontro rumo a uma ‘harmonia pluriforme’” (n.61), disponíveis para escutar e dialogar com as pessoas, realidades e histórias dos territórios (n.66). Escutar a sabedoria ancestral, dar voz aos idosos e “reconhecer os valores presentes no estilo de vida das comunidades nativas” (n.70).
Esses são os quatro sonhos que Francisco expressou na exortação. Especificamente, o Papa não sistematiza um sonho educativo, mas em sua abordagem as intencionalidades educativas aparecem com evidência. Querida Amazônia indica que esses sonhos são pensados a partir de uma pedagogia encarnada, isto é, da realidade (n.6). Provoca-nos a pensar uma pedagogia do “envolvimento”, capaz de prestar atenção, de escutar e de desaprender, para aprender o novo.
A seguir aprofundamos essas intencionalidades, que no título chamamos de “Sonho educativo” para a Amazônia:
- Educar para o “bem viver” (n.8), para o respeito às identidades e aos sentidos dos povos da Amazônia (n.13). Sem escuta honesta, não é possível tecer confiança, não há diálogo e nem cultura do encontro. Se tomarmos consciência de que “as culturas ancestrais dos povos nativos nasceram e se desenvolveram em íntimo contato com o ambiente natural circundante” (n.40), podemos aprender novas formas de habitar. O “bem viver” é um modo alternativo de pautar uma educação para a qualidade de vida, que implica “uma harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica” (n.71) de conceber a existência, e para o cuidado responsável que preserva os bens naturais para as gerações futuras.
- Educar para a fraternidade aberta. Reconhecer que a floresta abriga diversas formas de vida (n.13). Educar para compreender que existem raízes, memórias e afetos cheios de sentido comunitário, que dão sentidos às relações que os povos costuram com seus territórios e maretórios (n.20). Valorizar a sabedoria do estilo de vida desses povos nativos pode ajudar-nos a reimaginar práticas de fraternidade ecológica e de solidariedade intergeracional (n.22).
- Uma educação que “cuide das raízes”, evitando o empobrecimento e aquilo que danifica as memórias (n.33-35). Uma educação para o diálogo intercultural e para a corresponsabilidade pela diversidade, que afirme a perspectiva dos direitos dos povos e da natureza (n.36-40). Com especial aprecio, acolhe o sagrado indígena e considera-o um espaço de reunião e fraternidade (n.79).
- Diante das desigualdades, uma educação que se indigna e decide por práticas para a liberdade. Uma educação pluralista, decolonial e equitativa é capaz de construir redes de solidariedade e de fortalecimento comunitário (n.15-19). Essa educação considera, em termos de justiça social, a necessidade de reparar as injustiças do passado e do presente, e avançar para uma educação equitativa, inclusiva e sustentável. Dialoga com humildade e “pede autorização” para sugerir e acompanhar as suas propostas (n.26).
- Uma educação que nos ajuda “a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência verdadeiramente digna” (n.46). Uma educação para o cuidado e para a qualidade de vida, que nos interpele para projetos de vida pessoais e comuns que aspirem a estilos de vida mais sóbrios, com espaços para o tempo livre, a contemplação e as artes (n.53-56). Uma educação que nos provoque a desenvolver hábitos de vida mais serenos e respeitadores, menos ansiosos e egoicos (n.58-59).
- Educar para uma espiritualidade da gratuidade, da recepção e da admiração. Tomar consciência de que estamos interligados e que somos interdependentes (n.73), e compreender os sentidos dessa conexão íntima (n.75) dentro do equilíbrio e da harmonia de uma comunidade da vida, que coabita na Casa Comum.
- Uma educação que desconstrói pensamentos, sentimentos e atitudes individualistas e constrói amizade social e ecológica. Uma educação para entender os sentidos daquilo que o outro diz e faz (n.108), quando não for possível a partir de dentro, ao menos que seja a partir do lugar de fala dele (n.86).
- Duas perguntas que ficam após esse sonho:
- Que lugar ocupam a Amazônia e seus povos no currículo das escolas, independentemente de onde elas estejam localizadas?
- Caso exista essa proposta no currículo, qual sua abordagem e seus objetivos?

