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Capítulo reúne quase quatro décadas de aprendizados no Tapajós e reflete sobre cooperação, protagonismo comunitário e soluções construídas a partir dos territórios amazônicos

A Amazônia como território de aprendizagem, construção coletiva e transformação social está no centro do relato de Caetano Scannavino, que integra o livro Empreendedores de Impacto: Como homens visionários criaram negócios de sucesso, publicado pela Editora Reflexão e lançado no último dia 15, na Livraria da Vila, em São Paulo.

Organizada por Carolina Diaz, a publicação reúne histórias de diferentes empreendedores e agentes de transformação. A trajetória de Caetano aparece no capítulo “O problema talvez seja a nossa ideia de empreendedorismo”, escrito em parceria com Patrícia Kalil, ativista, graduanda em Engenharia Florestal e jornalista do Projeto Saúde e Alegria (PSA).

Mais do que apresentar uma experiência profissional, o capítulo convida a refletir sobre outras formas de compreender o empreendedorismo e o impacto social, valorizando iniciativas que nascem da escuta dos territórios, das relações comunitárias, da cooperação e da construção de soluções coletivas.

Caetano chegou à Amazônia em 1988, ainda nos primeiros anos de estruturação do Projeto Saúde e Alegria. A ideia inicial era permanecer apenas alguns meses, ajudando na documentação audiovisual do projeto e na implantação de ações de educomunicação com jovens das comunidades. Quase quatro décadas depois, sua história permanece profundamente ligada ao Tapajós e às populações da região.

“O que mais me fez ficar na Amazônia não foram as belezas do Tapajós, e sim as pessoas. Quando a gente vem de São Paulo, acha que é o salvador da pátria, que sabe tudo, aí descobre que não sabe nada. Tomei uma aula de vida. Nesses quase 40 anos de convivência, interação e construção com o povo do Tapajós, aprendi muito mais com eles do que eles comigo. A Amazônia e seus povos são uma fonte inesgotável de saberes. Só tenho a agradecê-los por essa parceria. Sim, o futuro é ancestral.”

Uma história construída com as comunidades

A aproximação de Caetano com a região aconteceu a partir do trabalho desenvolvido pelo irmão, Eugênio Scannavino, que havia chegado ao Tapajós em 1983 como médico da Prefeitura de Santarém, atuando junto às comunidades rurais.

Ao perceber que muitos problemas de saúde poderiam ser prevenidos, Eugênio e sua companheira, Márcia, começaram a incorporar ao atendimento médico ações educativas, formação de voluntários e iniciativas de prevenção.

Em 1985, os dois fundaram o Projeto Saúde e Alegria, organização que passou a desenvolver ações integradas nas áreas de saúde, educação, comunicação, meio ambiente e produção agroflorestal.

Desde os primeiros anos, uma das estratégias centrais foi fortalecer o protagonismo das próprias comunidades, formando moradores como agentes multiplicadores e envolvendo lideranças, produtores rurais, professores, agentes de saúde, grupos de mulheres, crianças e jovens.

Essa perspectiva de atuação, construída a partir da participação comunitária e do reconhecimento dos saberes locais, atravessa toda a trajetória apresentada no livro.

Comunicação feita a partir do território

Entre as experiências recuperadas pela publicação está a criação da Rede Mocoronga de Comunicação. No final da década de 1980, jovens de comunidades e aldeias começaram a ser formados como repórteres rurais, produzindo jornais murais e, posteriormente, conteúdos para rádio e vídeo.

Notícias, poesias, desenhos, campanhas educativas, entrevistas, conhecimentos tradicionais e histórias locais passaram a circular entre as próprias comunidades.

Cada território organizava sua própria “sucursal”, criando uma rede de produção de informação, memória e expressão cultural. A experiência avançou para o Sistema Mocorongo de Comunicação e, posteriormente, para ações de inclusão digital e fortalecimento de coletivos audiovisuais indígenas, quilombolas e extrativistas.

Saúde adaptada à realidade amazônica

Outra iniciativa destacada é o Abaré, embarcação criada para ampliar o acesso à atenção básica em saúde das populações ribeirinhas.

Implantado em 2006, com apoio da organização holandesa Terre des Hommes, o barco passou a realizar atendimentos regulares nas duas margens do Tapajós, alcançando comunidades rurais dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro.

A experiência articulou equipes de saúde, poder público, organizações locais e comunidades para adaptar a atenção básica às características e aos desafios de deslocamento do território amazônico.

Segundo o relato apresentado no livro, a iniciativa alcançou alto índice de resolutividade e passou a ser estudada pelo Ministério da Saúde. Em 2010, o modelo de atendimento por embarcações foi incorporado às políticas públicas de saúde para a Amazônia.

“Nosso papel nunca foi substituir o Estado, mas melhorar sua presença junto aos que mais precisam, ainda mais nessas áreas de difícil alcance. No quesito atendimento médico, ao virar política pública, cumprimos o objetivo de nos tornarmos desnecessários.”

Impacto social, autonomia e cooperação

O capítulo também percorre outras frentes desenvolvidas ao longo dos anos pelo Projeto Saúde e Alegria, entre elas ações relacionadas a saneamento e abastecimento de água, energias renováveis, conectividade, educação a distância, restauração florestal, sistemas agroflorestais e fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade.

A trajetória, contudo, também foi marcada por períodos de dificuldades financeiras, institucionais e sociais. Esses momentos, segundo Caetano, contribuíram para aprofundar relações de confiança e cooperação construídas com as comunidades.

Ao revisitar essas experiências, o livro apresenta uma concepção de impacto social que ultrapassa a execução de projetos: passa pelo fortalecimento das comunidades, pela valorização de seus conhecimentos, pela criação de autonomia e pela capacidade de transformar experiências locais em referências que possam dialogar com políticas públicas.

Para Caetano, quase quatro décadas de convivência com os povos do Tapajós também significaram rever certezas e aprender outras formas de construir caminhos para o futuro.

“A Amazônia continua desmontando certezas. E, ao fazer isso, continua também oferecendo pistas. Talvez o futuro não esteja naquilo que ainda querem arrancar dela, mas naquilo que ela ainda consegue ensinar: mais ancestralidade, mais vínculo, mais cooperação, mais amor, mais saúde e alegria.”

A experiência relatada no livro reforça uma perspectiva fundamental para quem atua na defesa da Amazônia: os territórios não são apenas espaços onde soluções precisam chegar. São lugares onde conhecimentos, alternativas e caminhos para o cuidado da vida já estão sendo construídos todos os dias, a partir de seus povos e comunidades.

Saiba mais sobre a publicação:
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