Notícia

Em Santarém, lideranças religiosas e comunitárias denunciam os impactos da estiagem prolongada, a destruição de plantações e as dificuldades no combate aos incêndios. REPAM-Brasil destaca a urgência da proteção da vida e dos territórios amazônicos.

A combinação de seca prolongada, temperaturas elevadas e avanço das queimadas tem agravado a situação de comunidades rurais e tradicionais no oeste do Pará. Na região de Santarém, relatos de lideranças comunitárias apontam para incêndios que ameaçam territórios, comprometem a produção agrícola e dificultam o cotidiano de famílias que dependem diretamente da terra e dos rios para sobreviver.

O arcebispo de Santarém, Dom Irineu Roman, alerta que a intensificação das queimadas em diferentes regiões da Amazônia exige uma resposta coletiva, envolvendo comunidades, organizações sociais, poder público e agentes pastorais.

Segundo o religioso, embora a fumaça ainda não tivesse atingido de forma significativa a cidade de Santarém no momento de seu relato, municípios próximos já enfrentavam consequências preocupantes.

Em Itaituba, no sudoeste do Pará, a baixa visibilidade em meio à fumaça prejudicou as operações aéreas. Em 13 de outubro, uma aeronave que partiu de Manaus não conseguiu concluir o pouso no município e retornou à capital amazonense.

Para Dom Irineu, episódios como esse demonstram a gravidade da situação e reforçam a necessidade de evitar novas queimadas.

Diante do avanço do fogo, a Arquidiocese de Santarém pretende intensificar as ações de orientação e sensibilização da população, utilizando sua estrutura de comunicação e a presença das comunidades eclesiais nos territórios.

A proposta envolve padres, diáconos, religiosos, religiosas, leigos e leigas, além de veículos como a Rádio 91.1, a TV Encontro e as redes sociais.

O objetivo é orientar a população sobre os riscos do uso do fogo durante a estiagem, especialmente em atividades agrícolas, na queima de resíduos e em áreas próximas à vegetação.

Dom Irineu também destaca a importância de acionar imediatamente os órgãos responsáveis, como o Corpo de Bombeiros, diante da identificação de incêndios.

A preocupação central é impedir que se repita a situação vivida em 2024, quando a fumaça das queimadas comprometeu gravemente a qualidade do ar em diferentes localidades da Amazônia.

O arcebispo alerta especialmente para os riscos à saúde de crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias, grupos mais vulneráveis à exposição à fumaça.

Para ele, o enfrentamento da crise exige educação ambiental, responsabilidade coletiva e o envolvimento de todos os setores da sociedade, inclusive das atividades econômicas que utilizam o fogo no manejo da terra.

Mulheres rurais relatam incêndios, perdas agrícolas e pedidos de socorro

Enquanto a Igreja busca ampliar as ações preventivas, comunidades rurais de Santarém já enfrentam consequências diretas da estiagem e das queimadas.

Marilene, coordenadora da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do município, relata que a região atravessa um período de quase 90 dias sem chuvas significativas, situação que tem agravado a propagação dos incêndios.

Segundo ela, comunidades da região do Lago Grande, da Reserva Extrativista e de áreas de assentamento e várzea enfrentam dificuldades crescentes para controlar o fogo.

A liderança conta que a associação recebeu pedidos de socorro de moradores de um dos territórios onde atua. A ausência de brigadas comunitárias estruturadas e as limitações de equipamentos disponíveis dificultam uma resposta rápida às ocorrências.

O problema também compromete a produção agrícola e a segurança alimentar das famílias.

Nas comunidades, plantações vêm sendo afetadas pelo calor intenso, pela falta de água e pelos incêndios. Entre as perdas relatadas estão roçados de mandioca, uma das principais bases da alimentação e da economia das populações rurais amazônicas.

A destruição das lavouras ameaça não apenas a produção de alimentos, mas também a renda de famílias que dependem da agricultura para sua subsistência.

Outro impacto destacado por Marilene é a dificuldade de deslocamento entre as comunidades. Com a estiagem e as alterações nas condições de navegação, mulheres que dependem de barcos e pequenas embarcações para transportar e comercializar seus produtos enfrentam obstáculos adicionais.

A situação atinge iniciativas de produção e comercialização agroecológica desenvolvidas pela associação, reduzindo as possibilidades de circulação das agricultoras e de escoamento dos alimentos.

Marilene relata que a organização já havia solicitado apoio para aquisição de meios alternativos de transporte, mas não recebeu os recursos reivindicados.

A liderança chama a atenção para a necessidade de investimentos em equipamentos, transporte e formação de brigadas locais, de modo que as próprias comunidades tenham melhores condições de prevenção e resposta às emergências.

O relato evidencia como a crise climática aprofunda vulnerabilidades já existentes, especialmente entre mulheres rurais que conciliam a produção de alimentos, o cuidado com as famílias e a defesa de seus territórios.

A realidade descrita pelas lideranças de Santarém reforça a necessidade de ações articuladas de prevenção, fiscalização, assistência às comunidades atingidas e fortalecimento das estruturas locais de combate aos incêndios.

Também evidencia a urgência de políticas públicas que considerem as particularidades da Amazônia, onde rios, florestas e atividades produtivas estão diretamente relacionados às condições de vida das populações.

À luz da ecologia integral e do compromisso com a justiça socioambiental, a REPAM-Brasil chama a atenção para a importância de ouvir as comunidades, reconhecer suas necessidades e fortalecer iniciativas de proteção dos territórios.

Mais do que combater os focos de incêndio, enfrentar a emergência climática na Amazônia significa garantir condições dignas de vida, proteger a produção de alimentos, preservar os recursos naturais e assegurar que as populações mais vulnerabilizadas não sejam deixadas sem assistência.

Defender a Amazônia é defender a vida de seus povos, suas comunidades e das futuras gerações.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário