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Na Amazônia, o cuidado com a terra, a preservação dos saberes tradicionais e a produção de alimentos têm a força e o protagonismo das mulheres.

No artigo “Mulheres que cultivam o futuro”, publicado pelo Le Monde Diplomatique Brasil, Deiliene, agricultora agroecológica do Povoado Passagem do Lago (MA), compartilha reflexões sobre soberania alimentar, agroecologia e a importância de preservar hoje para garantir o amanhã.

A publicação integra a mobilização “Mulheres na Agroecologia e Soberania Alimentar”, promovida pela REPAM-Brasil, que busca dar visibilidade às histórias e aos conhecimentos de mulheres que, em seus territórios, cultivam alimentos, protegem a biodiversidade e constroem caminhos de autonomia, resistência e cuidado com a Casa Comum.

Leia o artigo completo e conheça essa história.

Mulheres que cultivam o futuro

A soberania alimentar se constrói a partir do encontro entre tradição, conhecimento e compromisso com o futuro

Deiliene

Na Amazônia, a soberania alimentar tem rosto, voz e mãos de mulher. São elas que cultivam os alimentos que chegam à mesa das famílias, preservam sementes crioulas, transmitem conhecimentos ancestrais e cuidam da biodiversidade que sustenta a vida nos territórios. Mais do que agricultoras, são guardiãs de um modo de viver que compreende a terra não como mercadoria, mas como um bem comum que precisa ser protegido para as gerações presentes e futuras.

Em tempos de crise climática, insegurança alimentar e ameaças constantes aos territórios tradicionais, falar de agroecologia é também falar de resistência. E não há como discutir esse tema sem reconhecer o protagonismo das mulheres amazônicas, que diariamente demonstram que produzir alimentos pode ser um ato de cuidado, autonomia e transformação social.

A mobilização “Mulheres na Agroecologia e Soberania Alimentar”, promovida pela REPAM-Brasil, nasce justamente do desejo de dar visibilidade a essas histórias. Histórias que revelam que a agroecologia vai muito além de um modelo de produção agrícola: ela é uma escolha política e ética que coloca a vida no centro das relações entre as pessoas e a natureza.

A soberania alimentar se constrói a partir do encontro entre tradição, conhecimento e compromisso com o futuro. Cultivar a terra é também cultivar a memória e preservar os ensinamentos recebidos de seus antepassados, que aprenderam a respeitar os ciclos da natureza e a viver em harmonia com o território.

Crédito: Repam Brasil

Ao mesmo tempo, a tradição e a inovação não são caminhos opostos. Pelo contrário, os conhecimentos herdados das gerações anteriores são constantemente fortalecidos pelo acesso a cursos, formações e novas técnicas de cultivo sustentável.

“A gente está sempre buscando conhecimento para se aperfeiçoar cada vez mais”.

Muitas vezes as mulheres são invisibilizadas do trabalho rural: elas são produtoras de conhecimento. São capazes de dialogar com a ciência sem abrir mão dos saberes construídos em seus territórios, promovendo soluções sustentáveis que respeitam a cultura local e fortalecem a autonomia das comunidades.

Mais do que produzir alimentos, preservar a terra é garantir a continuidade da vida. “Se a gente preservar hoje, a gente tem um futuro amanhã”. Um dos maiores desafios do nosso tempo: produzir sem destruir, desenvolver sem excluir e crescer sem comprometer o futuro das próximas gerações.

A agroecologia praticada pelas mulheres amazônicas nos mostra que a soberania alimentar não se limita ao direito de comer. Ela está diretamente relacionada ao direito dos povos de decidir como produzir seus alimentos, preservar seus territórios e manter vivas suas identidades culturais. É um projeto de futuro que nasce do respeito à natureza e do reconhecimento dos saberes tradicionais.

Valorizar o trabalho dessas mulheres é reconhecer que elas não apenas alimentam suas famílias e comunidades. Elas alimentam alternativas concretas para enfrentar as crises ambientais e sociais que atravessamos. Em cada semente preservada, em cada alimento cultivado sem veneno e em cada conhecimento compartilhado, há uma proposta de sociedade mais justa, sustentável e solidária.

Quando as mulheres cultivam a terra, cultivam também a vida, a autonomia dos povos e a esperança de um futuro em que a relação entre humanidade e natureza seja marcada pelo cuidado e pela reciprocidade. Ouvir suas vozes e fortalecer suas práticas é, hoje, uma das formas mais potentes de defender a Amazônia e a nossa Casa Comum.

Deiliene é agricultora agroecológica do Povoado Passagem do Lago (MA) e dedica-se ao cultivo sustentável dos alimentos, à preservação dos saberes tradicionais e ao fortalecimento da soberania alimentar em sua comunidade.

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